Cães e gatos também sentem jet lag? Veja o que a ciência sabe sobre viagens com pets

Enjoo, estresse, mudanças no sono e alterações de comportamento podem acompanhar os deslocamentos; entender o que acontece com cães e gatos ajuda a tornar a viagem menos desconfortável

 

As malas estão prontas, a família entra no carro ou segue para o aeroporto e o cachorro ou gato vai junto. Para os humanos, uma viagem longa pode significar cansaço, enjoo e, quando envolve mudança de fuso horário, noites mal dormidas até que o organismo se adapte. Mas e os animais? Será que cães e gatos também sentem os efeitos de uma viagem? E podem sofrer algo parecido com o nosso jet lag?

A resposta mais segura da ciência é: sim, viagens podem provocar alterações físicas e comportamentais importantes em cães e gatos. Mas nem todo desconforto durante ou depois de uma viagem é jet lag.

Há pelo menos três fatores diferentes envolvidos: o estresse causado pelo deslocamento e pela mudança de ambiente, o enjoo relacionado ao movimento e, principalmente nas viagens entre fusos horários, a necessidade de adaptação dos ritmos biológicos.

Para eles, viajar também pode ser estressante

O primeiro ponto é bem documentado. Transportar um animal pode desencadear uma resposta fisiológica de estresse.

Em um estudo com cães da raça Beagle submetidos a viagens rodoviárias, os pesquisadores observaram aumento significativo do cortisol durante o transporte. A concentração chegou a aproximadamente dobrar no plasma e aumentar oito vezes na saliva. Também foram verificadas alterações na frequência cardíaca e em outros parâmetros fisiológicos relacionados ao estresse. Curiosamente, a repetição das viagens não eliminou essa resposta.

Nos gatos, a situação também chama atenção. Um estudo mostrou que colocar os animais em caixas de transporte e levá-los para um ambiente desconhecido foi suficiente para produzir respostas relacionadas ao estresse. Outra pesquisa mais recente encontrou aumento significativo do cortisol depois de gatos serem submetidos ao transporte e posteriormente apresentados a uma pessoa desconhecida em um novo ambiente.

Ou seja: o animal não precisa necessariamente estar em um avião durante dez horas para sentir os efeitos de uma viagem. Para alguns, entrar na caixa de transporte, enfrentar o carro e chegar a um local desconhecido já representa uma sequência importante de estímulos.

Enjoo não é “coisa de gente”

Há ainda outro fenômeno: a cinetose, popularmente conhecida como enjoo de movimento.

O deslocamento do veículo pode gerar um conflito entre as informações recebidas pelo sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio, e outros estímulos sensoriais. Em cães, náusea e desconforto durante viagens podem aparecer acompanhados de salivação excessiva, lambedura dos lábios, inquietação e vômito. O próprio estudo com Beagles encontrou comportamentos compatíveis com a possibilidade de cinetose durante o transporte.

Gatos também podem apresentar sinais semelhantes. Em um estudo controlado sobre estresse durante transporte, alguns dos animais apresentaram vômito e salivação excessiva durante aproximadamente 70 minutos de deslocamento.

Isso ajuda a explicar por que um animal que aparentemente “odeia viajar” não está necessariamente apenas com medo. Pode existir um componente físico de náusea associado ao movimento. E os dois problemas ainda podem coexistir: o cachorro passa mal no carro, começa a associar o veículo ao mal-estar e desenvolve uma resposta antecipatória de medo ou ansiedade.

Mas cachorro e gato têm jet lag?

Aqui a resposta exige mais cautela.

Cães e gatos possuem ritmos circadianos, ciclos biológicos de aproximadamente 24 horas que participam da organização de diferentes funções do organismo. Luz e escuridão são sinais ambientais importantes, mas a rotina doméstica também interfere: horários de alimentação, interação com os tutores, atividade e descanso ajudam a organizar o dia desses animais.

Portanto, biologicamente, existe fundamento para imaginar que uma mudança brusca entre fusos horários possa exigir adaptação do organismo.

O que ainda não existe é uma base científica comparável àquela disponível para seres humanos que permita estabelecer algo como: “um cachorro leva tantos dias para superar o jet lag” ou “tantos fusos provocam determinado efeito em gatos”.

A literatura científica específica sobre jet lag decorrente de viagens comerciais de cães e gatos ainda é limitada. Por isso, é mais correto dizer que uma viagem com grande alteração de horário pode desorganizar temporariamente a rotina e os ritmos biológicos do animal, e não simplesmente afirmar que cães e gatos experimentam exatamente o mesmo jet lag observado nas pessoas.

A mudança de rotina também pesa

Imagine um gato acostumado a comer às 7h, descansar durante determinados períodos e interagir com a família sempre em horários semelhantes. Depois de uma viagem, ele chega a outro ambiente, com novos cheiros, sons, luminosidade e horários.

Mesmo sem uma mudança de fuso significativa, já existe uma quebra de previsibilidade.

E previsibilidade importa especialmente para os gatos. Estudos demonstram que alterações imprevisíveis de manejo e rotina podem produzir respostas comportamentais e fisiológicas de estresse. Em uma pesquisa clássica, gatos submetidos durante semanas a uma rotina imprevisível apresentaram aumento persistente de cortisol urinário e redução de comportamentos exploratórios e de brincadeira.

Por isso, depois de uma viagem, esconder-se mais, explorar menos ou apresentar mudanças temporárias de comportamento pode estar relacionado não somente ao deslocamento, mas também à necessidade de adaptação ao novo ambiente.

É possível ensinar o animal a viajar melhor?

Em alguns casos, sim. E talvez esta seja uma das informações mais interessantes para os tutores.

Um estudo avaliou gatos que passaram por um processo de treinamento para se acostumarem à caixa de transporte e às viagens de carro. Os animais treinados apresentaram menos sinais de estresse durante o deslocamento do que aqueles que não passaram pela adaptação.

A caixa, portanto, não precisa aparecer apenas cinco minutos antes da consulta veterinária ou da viagem. Mantê-la acessível em casa, permitir que o gato entre espontaneamente, associá-la a experiências positivas e realizar pequenos deslocamentos de adaptação são estratégias que podem reduzir a novidade envolvida no processo.

Para os cães, a lógica é semelhante. A adaptação gradual ao veículo e a trajetos progressivamente maiores pode ajudar principalmente quando existe um componente comportamental. Entretanto, quando há náusea intensa ou ansiedade importante, simplesmente “viajar mais para acostumar” não necessariamente resolve. Um estudo com cães encontrou resposta de estresse mesmo após transportes repetidos.

Como tornar a viagem menos pesada para o pet

Antes de uma viagem longa, principalmente de avião, vale avaliar as condições individuais do animal com um médico-veterinário. Idade, doenças cardíacas ou respiratórias, condição clínica, histórico de vômitos, ansiedade e características como braquicefalia podem alterar significativamente o planejamento.

Também é importante diferenciar medo e ansiedade de náusea, porque são problemas distintos e podem exigir abordagens diferentes. Medicações para enjoo ou para ansiedade não devem ser administradas por conta própria.

No caso dos gatos, revisões científicas sobre viagens aéreas defendem uma abordagem multimodal: preparação prévia, familiarização com a caixa de transporte, redução dos estímulos estressantes e, quando clinicamente indicado, intervenção farmacológica prescrita pelo veterinário.

Ao chegar ao destino, preservar elementos familiares também pode ajudar. Caixa ou cama conhecida, brinquedos, alimentação habitual e, para os gatos, objetos com odores familiares diminuem a quantidade de novidades apresentadas simultaneamente.

Em viagens com mudança importante de fuso, uma estratégia prudente é permitir uma adaptação progressiva à nova rotina, observando sono, alimentação, disposição e comportamento nos primeiros dias.

O comportamento conta o que o animal não consegue dizer

Cães e gatos não vão avisar que estão enjoados, cansados ou desorientados depois de uma viagem. Mas o comportamento fornece pistas.

Salivação excessiva, vômitos, vocalização, respiração ofegante, inquietação, lambedura frequente dos lábios, tentativa de fuga ou, no outro extremo, permanecer imóvel e escondido podem indicar que aquele deslocamento está sendo difícil.

Depois da chegada, mudanças persistentes no apetite, sono, interação, eliminação ou atividade também merecem atenção. Se forem intensas ou prolongadas, a avaliação veterinária é indicada.

A principal conclusão da ciência talvez seja justamente esta: viajar com um pet não significa apenas transportá-lo de um lugar para outro. Para cães e gatos, o trajeto reúne movimento, ruídos, cheiros, confinamento, mudanças ambientais e quebra de rotina. Em viagens longas, pode ainda haver uma alteração abrupta dos sinais que organizam seus ciclos biológicos.

Eles podem não sentir a viagem exatamente como nós. Mas o organismo e o comportamento deixam claro que, para muitos animais, chegar ao destino também exige adaptação.

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