Dia do Médico-Veterinário: expansão da profissão aumenta responsabilidade sobre a qualidade da formação

*Por Francis Flosi, médico-veterinário e diretor da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas.

 

Dia do Médico-Veterinário: expansão da profissão aumenta responsabilidade sobre a qualidade da formaçãoNo dia 9 de setembro, o Brasil celebra o Dia do Médico-Veterinário, uma data que marca um dos principais momentos da história da profissão no país. Foi nessa data, em 1933, que o então presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 23.133, primeira regulamentação da Medicina Veterinária no Brasil. O marco estabeleceu condições para o exercício profissional e, por isso, a data passou a ser adotada como referência para a celebração da categoria.

Mais de nove décadas depois, a Medicina Veterinária se transformou profundamente. O profissional deixou de ser associado exclusivamente ao atendimento clínico de animais e passou a ocupar posições estratégicas em áreas como saúde pública, prevenção e controle de zoonoses, inspeção de alimentos de origem animal, pesquisa, produção animal, segurança alimentar, indústria, meio ambiente e bem-estar animal.

Ao mesmo tempo em que a profissão amplia seu campo de atuação, cresce também a preocupação com a qualidade da formação. Dados apresentados pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) apontam a existência de 536 cursos de Medicina Veterinária autorizados a funcionar no Brasil, sendo que 476 já haviam iniciado efetivamente suas atividades no levantamento do Conselho. Em 2026, o próprio CFMV reforçou o debate sobre a necessidade de mecanismos que assegurem padrões mínimos de qualidade no ensino e destacou o crescimento acelerado de cursos como um dos principais desafios da formação profissional.

Como médico-veterinário e diretor da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas, entendo que o crescimento da profissão precisa vir acompanhado de um compromisso permanente com a educação. O médico-veterinário não pode mais ser visto apenas como o médico dos bichinhos. A clínica de animais de companhia e de produção é uma das importantes áreas de atuação, mas a nossa responsabilidade vai muito além. Estamos diretamente envolvidos com a saúde pública, a segurança dos alimentos, a prevenção de zoonoses, a pesquisa, o meio ambiente e, consequentemente, com a própria saúde humana. Quanto maior é o campo de atuação, maior também é a responsabilidade com a formação desses profissionais.

Da saúde animal à saúde humana

A atuação do médico-veterinário está diretamente relacionada ao conceito de Saúde Única, que reconhece a conexão entre a saúde humana, a saúde animal e o equilíbrio ambiental.

As zoonoses são um dos exemplos mais claros dessa relação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 200 doenças zoonóticas conhecidas, e algumas delas representam importantes desafios para a saúde pública.

Nesse cenário, o médico-veterinário atua na prevenção, identificação, controle e vigilância de doenças que podem circular entre animais e seres humanos. Quando falamos em zoonoses, estamos falando de uma cadeia que não pode ser analisada de maneira isolada. A saúde do animal, a saúde das pessoas e a preservação do ambiente estão interligadas. É justamente por isso que o médico-veterinário precisa estar preparado para atuar de maneira multidisciplinar e compreender o impacto de suas decisões para toda a sociedade.

Doenças como raiva, leptospirose, leishmaniose, toxoplasmose, brucelose e tuberculose, entre outras, demonstram como a vigilância da saúde animal também é uma ferramenta de proteção à população.

Muito além da clínica

A imagem tradicional do veterinário atendendo cães e gatos representa apenas uma parte da profissão. O Sistema CFMV/CRMVs destaca que os profissionais podem atuar em mais de 80 áreas, incluindo inspeção e fiscalização de produtos de origem animal, pesquisa, ensino, perícia, produção de medicamentos e vacinas, prevenção de zoonoses e proteção ambiental.

No mercado pet, a expansão da relação entre pessoas e animais também abriu novas oportunidades para a Medicina Veterinária. Medicina preventiva, especialidades clínicas, nutrição, geriatria, comportamento e novas tecnologias fazem parte de um setor cada vez mais exigente.

Essa transformação aumenta a necessidade de atualização permanente. A Medicina Veterinária mudou porque a sociedade mudou. Hoje, os responsáveis pelos animais procuram atendimento especializado, diagnóstico mais preciso, prevenção e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, temos desafios enormes relacionados às zoonoses, à segurança alimentar e às mudanças ambientais. Não existe mais espaço para uma formação limitada: o profissional precisa estar preparado para aprender continuamente.

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Formação é responsabilidade com a sociedade

A discussão sobre a quantidade de cursos não significa questionar a importância da expansão do acesso ao ensino superior, mas reforçar que formar um médico-veterinário envolve uma responsabilidade que ultrapassa o ambiente acadêmico.

O CFMV defende atualmente o fortalecimento de mecanismos de avaliação e garantia da qualidade da formação, justamente porque a atuação médico-veterinária tem impacto direto sobre a saúde pública, os alimentos consumidos pela população, o bem-estar animal, o meio ambiente e a economia.

Estamos formando profissionais que terão vidas sob sua responsabilidade. Por isso, precisamos discutir não apenas quantos médicos-veterinários o Brasil precisa, mas, principalmente, qual médico-veterinário queremos colocar no mercado. Educação continuada, especialização, atualização científica e qualidade de ensino são compromissos que precisam acompanhar toda a carreira. Não podemos tratar a formação como uma etapa que termina com o diploma.

Uma profissão essencial para o futuro

Ao completar mais um ano de celebração, o Dia do Médico-Veterinário representa não apenas uma homenagem à categoria, mas também uma oportunidade para mostrar à sociedade a dimensão de uma profissão que participa diretamente da construção de uma sociedade mais saudável.

Da clínica veterinária aos laboratórios de pesquisa, das propriedades rurais às indústrias de alimentos, da vigilância sanitária às políticas de saúde pública, o médico-veterinário ocupa uma posição estratégica na relação entre animais, pessoas e meio ambiente. Celebrar o Dia do Médico-Veterinário é reconhecer uma profissão que cuida da vida em diferentes dimensões. Mas também é lembrar que esse reconhecimento vem acompanhado de uma grande responsabilidade: formar profissionais cada vez mais preparados para os desafios atuais e, principalmente, para aqueles que ainda estão por vir.

*Francis Flosi é médico-veterinário e diretor da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas.

 

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