Quanto exercício um cachorro precisa por dia? Veja o que diz a ciência

Não existe uma quantidade universal de minutos para todos os cães; idade, raça, porte, condição corporal e intensidade da atividade ajudam a determinar quanto cada animal precisa se movimentar

 

Durante muito tempo, a rotina de Thor praticamente terminava na porta de casa. O cão tinha espaço para circular, brinquedos à disposição e recebia atenção da família, mas os passeios eram esporádicos. Aos poucos, o tutor Cláudio Vieira, de Ribeirão Preto, começou a perceber um animal cada vez mais agitado dentro de casa, procurando constantemente algo para fazer e com dificuldade para desacelerar em determinados momentos do dia.

A mudança veio quando os passeios passaram a fazer parte da rotina. Primeiro, caminhadas mais curtas. Depois, saídas diárias mais longas, momentos para farejar e atividades que exigiam mais movimento. A transformação chamou a atenção da família: Thor passou a chegar em casa mais tranquilo e a rotina ficou mais equilibrada.

A experiência levanta uma pergunta comum entre tutores: afinal, quanto um cachorro precisa se exercitar por dia?

A ciência não estabelece um número mágico

Diferentemente das recomendações de atividade física para seres humanos, não existe hoje uma diretriz científica universal determinando que todo cachorro saudável precise caminhar exatamente 30, 60 ou 90 minutos por dia.

E há uma razão para isso. A população canina é extremamente heterogênea. Um cão jovem selecionado geneticamente para pastoreio ou trabalho pode apresentar necessidades muito diferentes das de um animal pequeno, idoso ou de uma raça braquicefálica. Idade, porte, raça, condição corporal, saúde, temperatura ambiente e intensidade da atividade interferem nessa equação.

Um grande estudo publicado em 2025, utilizando dados de acelerômetros de 28.562 cães, encontrou média de aproximadamente 51 minutos de atividade registrados por dia, mas com uma variação enorme: havia animais com menos de dez minutos e outros ultrapassando várias horas. Idade, tamanho, sexo, ambiente, clima e até época do ano apareceram associados aos níveis de atividade.

Por isso, transformar 51 ou 60 minutos em uma recomendação universal seria uma interpretação equivocada. O dado mostra como os cães se comportaram naquela população, não necessariamente quanto deveriam se exercitar.

Mais importante que o relógio é entender o cachorro

Na prática, a pergunta “quantos minutos?” precisa ser acompanhada de outras: qual cachorro, fazendo qual atividade e em qual intensidade?

Uma caminhada tranquila, na qual o animal para diversas vezes para farejar, é diferente de correr, buscar uma bola repetidamente ou acompanhar o tutor em uma trilha. Da mesma forma, cães de trabalho ou esportivos podem apresentar demandas energéticas muito superiores às de animais domésticos pouco ativos. A literatura científica recomenda que programas de condicionamento considerem resistência cardiovascular e muscular, força, mobilidade, flexibilidade e também estímulos mentais, com progressão gradual da intensidade.

Isso significa que sair de casa também não precisa ser entendido apenas como “cansar o cachorro”. Passear permite explorar cheiros, ambientes e estímulos diferentes e proporciona interação com o tutor. Exercício físico e enriquecimento ambiental se complementam.

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Cachorro também tem uma conta de calorias?

Sim. E aqui existe uma semelhança interessante com os seres humanos.

A medicina veterinária trabalha com estimativas de necessidade energética. Uma delas é o RER, ou necessidade energética de repouso, a quantidade de energia necessária para a manutenção das funções básicas do organismo. A partir dela e de outros modelos é possível estimar a necessidade energética diária considerando características do animal e seu estilo de vida.

O National Research Council, por exemplo, já propôs estimativas próximas de 95 kcal × peso corporal em kg elevado a 0,75 para cães adultos inativos e 130 kcal × peso elevado a 0,75 para adultos ativos. São referências, não prescrições individuais. Um estudo brasileiro recente, analisando 438 prontuários veterinários entre 2013 e 2025, encontrou grande variação nas necessidades energéticas e reforçou a importância de individualizar o cálculo considerando fatores como castração e condição corporal.

Uma meta-análise anterior chegou à mesma conclusão: peso sozinho não explica adequadamente quanto um cão precisa consumir. Nível de atividade, manejo e castração também interferem na necessidade energética.

Portanto, um cão que passa a se exercitar muito mais pode ter um gasto energético diferente, mas isso não significa simplesmente acrescentar comida ao pote depois de cada caminhada.

Dá para calcular quantas calorias o passeio queimou?

É justamente aí que a comparação com os humanos encontra um limite.

Embora existam acelerômetros e dispositivos capazes de estimar a atividade dos cães, converter cada caminhada em uma quantidade precisa de calorias gastas ainda não é algo tão simples para uso cotidiano. O gasto depende de peso, velocidade, duração, terreno, temperatura, condicionamento e características individuais.

Há evidências, entretanto, de que o movimento altera essa equação. Em um estudo com cães submetidos a programa de emagrecimento, cada incremento de mil passos diários esteve associado à possibilidade de aproximadamente 1 kcal por kg de peso metabólico a mais na ingestão, mantendo a meta de perda de peso.

Mas, para animais acima do peso, apenas “andar mais” também não resolve necessariamente o problema. Um ensaio clínico randomizado mostrou que a restrição calórica foi mais eficiente para promover perda de peso do que somente aumentar a atividade física, reforçando que alimentação e exercício precisam ser avaliados conjuntamente.

Então, como saber se o cão está se movimentando o suficiente?

Em vez de buscar apenas um número de minutos, vale observar o conjunto. Um animal saudável deve ter oportunidades regulares de caminhar, explorar, farejar, brincar e realizar atividades compatíveis com sua capacidade física.

O peso e o escore de condição corporal também são importantes. Estudos mostram associação entre menor frequência e duração dos passeios e maior ocorrência de excesso de peso. Uma pesquisa envolvendo mais de 11 mil cães encontrou relação independente entre frequência e duração das caminhadas e a probabilidade de o animal estar acima do peso.

Também é preciso observar o comportamento. Um cão permanentemente inquieto pode estar precisando de mais estímulos, mas não se deve concluir automaticamente que todo comportamento indesejado seja simplesmente “energia acumulada”. Dor, ansiedade, medo e outras alterações clínicas ou comportamentais também podem produzir mudanças importantes e precisam ser investigadas.

Começar aos poucos é tão importante quanto começar

Para um cachorro sedentário como Thor, sair de praticamente nenhuma atividade para longas corridas todos os dias não seria uma boa estratégia. Assim como acontece conosco, condicionamento físico é construído progressivamente.

Animais idosos, obesos, braquicefálicos ou com problemas cardíacos, respiratórios e ortopédicos exigem atenção especial e podem precisar de avaliação veterinária antes de aumentar significativamente a intensidade dos exercícios.

A ciência, portanto, não entrega uma fórmula simples como “todo cão precisa caminhar uma hora por dia”. Ela aponta para algo mais individualizado: todo cachorro precisa de oportunidades regulares de movimento e estímulo, mas a quantidade e a intensidade adequadas dependem daquele animal.

No caso de Thor, o relógio foi apenas parte da mudança. O que realmente transformou sua rotina foi deixar de viver uma vida predominantemente sedentária para passar a caminhar, explorar, farejar e interagir diariamente com o ambiente. E, para muitos cães, colocar o corpo e o cérebro em movimento pode ser justamente uma parte importante do caminho para uma vida mais equilibrada.

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