Por que os cães comem grama? Ciência explica hábito que intriga tutores

Comportamento é comum e nem sempre significa dor de barriga, vermes ou tentativa de provocar vômito; estudos indicam que o hábito pode fazer parte do repertório natural dos cães

 

A cabeleireira Patrícia Almeida, de Americana, já perdeu as contas de quantas vezes viu Fred, seu golden retriever de quatro anos, sair para o quintal e, de repente, começar a comer os matinhos que crescem próximos ao jardim. Ele cheira daqui, procura dali e escolhe algumas folhas para mastigar. Para ela, a cena acabou se tornando tão comum que já faz parte da rotina do cachorro.

No começo, porém, o comportamento causava preocupação. Patrícia cresceu ouvindo uma explicação bastante conhecida entre os tutores de animais: se cachorro procura mato para comer, provavelmente está com dor de barriga, vermes ou algum outro desconforto e usa a planta para “limpar o organismo”.

“Quando ele fazia isso, eu ficava esperando para ver se ia vomitar. Sempre ouvi que cachorro come mato quando está com o estômago ruim. Às vezes ele comia, ficava normalmente no quintal e não acontecia absolutamente nada. Depois voltava para dentro de casa como se nada tivesse acontecido”, conta.

A experiência de Patrícia com Fred é fictícia, mas representa uma situação extremamente comum entre famílias que convivem com cães. E é justamente essa crença popular que pesquisadores vêm tentando entender: afinal, por que tantos cachorros comem grama?

Nem sempre é dor de barriga

Um dos estudos mais conhecidos sobre o assunto, publicado na revista científica Applied Animal Behaviour Science, investigou o consumo de plantas por cães e encontrou um comportamento bastante frequente. Entre os animais que ingeriam vegetação, 68% faziam isso diariamente ou semanalmente e a grama apareceu como a planta mais consumida.

O mais interessante está no que acontecia antes e depois. Apenas 9% dos cães eram frequentemente percebidos pelos tutores como doentes antes de comer plantas e somente 22% vomitavam com frequência posteriormente.

Os resultados ajudaram a colocar em dúvida uma explicação repetida por gerações: a de que o cachorro necessariamente procura grama porque está passando mal e pretende provocar o próprio vômito.

A ciência ainda não encontrou uma razão única para o comportamento. Uma das hipóteses é que ele simplesmente faça parte do repertório natural dos cães. O consumo de material vegetal também é observado em canídeos selvagens, indicando que o hábito pode carregar componentes evolutivos anteriores à própria domesticação.

Outras possibilidades são bem mais simples. Alguns animais podem gostar do sabor ou da textura da vegetação. Outros podem mastigá-la por curiosidade, exploração do ambiente, fome ou simplesmente porque incorporaram aquilo à rotina.

Fred, por exemplo, poderia ser justamente um desses cães. Na história de Patrícia, ele não precisa estar doente para transformar alguns minutos no quintal em uma pequena sessão de “pastagem”.

E os vermes?

A associação entre comer grama e verminose também faz parte da sabedoria popular, mas não deve ser utilizada como diagnóstico.

Há hipóteses evolutivas discutindo se a ingestão de plantas poderia ter desempenhado algum papel relacionado a parasitas intestinais em ancestrais dos cães. Isso, entretanto, é muito diferente de afirmar que um cachorro doméstico que come grama esteja com vermes.

Na prática, a presença de parasitas precisa ser avaliada a partir do histórico do animal, sinais clínicos e, quando necessário, exames solicitados pelo médico-veterinário. Apenas observar o cachorro mastigando algumas folhas no jardim não permite chegar a essa conclusão.

Outro dado curioso encontrado pelos pesquisadores é que cães mais jovens apresentaram maior frequência de ingestão de plantas do que animais mais velhos e, ao mesmo tempo, eram menos propensos a demonstrar sinais de doença antes ou vomitar depois. É mais uma pista de que o comportamento pode ser perfeitamente normal.

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Mas por que alguns vomitam depois?

É justamente o vômito ocasional que provavelmente ajudou a construir a fama da grama como um “remédio natural” dos cachorros.

Alguns cães realmente vomitam depois de ingerir vegetação. Isso não significa, porém, que tenham planejado comer a planta para provocar o vômito. A própria ingestão de folhas e talos pode irritar o trato gastrointestinal ou participar de um processo que já estava acontecendo.

Por isso, causa e consequência não devem ser confundidas.

Um cachorro pode estar com algum desconforto e comer grama. Pode comer grama e depois vomitar. Mas também pode, como ocorre frequentemente, mastigar algumas folhas e continuar o dia normalmente.

Quando o matinho merece atenção

Se Fred existisse, Patrícia faria bem em observar não apenas o fato de ele comer grama, mas principalmente se o comportamento mudou.

Um cão saudável que eventualmente mastiga vegetação no quintal ou durante o passeio representa uma situação diferente daquele que começa repentinamente a procurar grama de forma insistente e, ao mesmo tempo, apresenta vômitos repetidos, diarreia, perda de apetite, apatia, dor ou alterações nas fezes.

Nesses casos, o comportamento deixa de ser apenas uma curiosidade e passa a integrar um conjunto de informações importantes para uma avaliação veterinária.

Também é necessário prestar atenção ao local. O risco muitas vezes não está na grama propriamente dita, mas no que pode estar sobre ela. Herbicidas, pesticidas e outros produtos utilizados em jardins podem ser perigosos. Áreas frequentadas por muitos animais também podem apresentar contaminação fecal, além da possibilidade de o cão ingerir, junto com a grama, alguma planta potencialmente tóxica.

Uma coisa de cachorro

Para Patrícia, durante muito tempo, Fred comendo matinho significaria uma coisa: alguma coisa não estava bem com a barriga dele. A ciência mostra que a resposta não precisa ser tão automática.

Comer grama é um comportamento frequente entre cães e, isoladamente, não significa que o animal esteja doente, com vermes ou tentando se fazer vomitar.

A cena que intriga tantos tutores pode ter explicações evolutivas, comportamentais e até relacionadas à simples preferência do animal.

Então, quando o cachorro interromper o passeio, abaixar a cabeça e começar a mastigar aquele pequeno pedaço de gramado, vale observar antes de concluir.

Às vezes, o que parece um estranho remédio criado pela natureza pode ser simplesmente uma coisa de cachorro.

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