Nova tecnologia permite medir biomarcador cardíaco durante o atendimento e pode ajudar veterinários diante de sinais que, para o tutor, muitas vezes parecem apenas consequência da idade
Aos 11 anos, um Cavalier King Charles Spaniel que vive com uma família no interior de São Paulo começa a diminuir o ritmo. No passeio, para antes de chegar ao fim do quarteirão. Em casa, prefere permanecer deitado e já não demonstra a mesma disposição para subir no sofá. Para o tutor, a primeira explicação provavelmente seria simples: ele está ficando velho.
Para o médico-veterinário, porém, a combinação entre idade, raça, histórico e mudança de comportamento pode justificar uma investigação mais cuidadosa do coração.
É justamente diante de situações como essa que uma tecnologia lançada neste mês chama atenção. A IDEXX anunciou, em 11 de agosto, o Catalyst proBNP, apresentado pela companhia como o primeiro teste quantitativo de NT-proBNP realizado no próprio ambiente clínico para cães e gatos.
A novidade coloca dentro da clínica uma análise que pode acrescentar uma informação importante durante a própria consulta.
O que o exame procura?
O NT-proBNP é um biomarcador liberado em maior quantidade diante de determinadas situações de estresse e distensão do músculo cardíaco. Sua concentração pode ajudar o veterinário na investigação de doenças do coração, sempre em conjunto com exame clínico, histórico e, quando necessário, outros métodos diagnósticos.
A inovação está principalmente no tempo e no local.
Em vez de necessariamente depender do envio da amostra e aguardar posteriormente o resultado, a proposta do novo teste é realizar uma medição quantitativa utilizando a plataforma Catalyst dentro da própria clínica.
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Segundo a IDEXX, a tecnologia foi desenvolvida para cães e gatos e passa a integrar uma plataforma que possui quase 80 mil analisadores instalados mundialmente.
Isso não transforma o equipamento em um cardiologista e tampouco elimina exames como ecocardiograma. Mas pode colocar uma informação adicional nas mãos do veterinário ainda durante a investigação do paciente.
Quando “ele está ficando velho” pode não explicar tudo
Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da tecnologia para a rotina clínica.
Intolerância ao exercício, redução da disposição, alterações respiratórias e outros sinais percebidos em casa podem ser inicialmente associados pelo tutor ao envelhecimento. Em determinadas doenças cardíacas, porém, mudanças discretas podem fazer parte do quadro.
Raças com predisposição a determinadas cardiopatias tornam essa discussão ainda mais relevante. Cavalier King Charles Spaniels, por exemplo, apresentam reconhecida predisposição à doença mixomatosa da valva mitral.
Imagine, então, que aquele cão do início desta reportagem exista de verdade.
É esse o personagem que a reportagem deve encontrar em São Paulo: um tutor de um Cavalier adulto ou idoso que tenha percebido redução de disposição, mudança nos passeios ou outro comportamento que inicialmente atribuiu à idade e que posteriormente passou por investigação cardíaca.
O interessante não é fazê-lo experimentar necessariamente o novo produto, mas mostrar ao veterinário como a inovação conversa com uma situação que já chega diariamente ao consultório.
Gatos tornam a história ainda mais interessante
Nos felinos, existe outro desafio: doenças cardíacas podem ser particularmente difíceis de perceber apenas pelo que acontece dentro de casa.
Um gato não precisa fazer uma caminhada diária para que o tutor perceba redução da resistência física. Pequenas mudanças podem aparecer na decisão de subir ou não em determinado móvel, na disposição para brincar ou em alterações de rotina que facilmente passam despercebidas.
É também por isso que biomarcadores cardíacos ganharam espaço como ferramentas auxiliares na medicina felina.
O novo teste não significa que um único número possa diagnosticar uma cardiopatia. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico e pode indicar a necessidade de investigação adicional.
O consultório está virando um pequeno laboratório?
Essa talvez seja a discussão mais ampla provocada pelo lançamento.
Equipamentos point-of-care estão aproximando diferentes análises do momento da consulta. Em vez de separar completamente atendimento, coleta, laboratório e resultado, algumas respostas começam a chegar enquanto o paciente ainda está sob avaliação.
Para o veterinário, isso pode significar uma tomada de decisão mais rápida. Para o tutor, pode reduzir a distância entre a primeira suspeita e os próximos passos da investigação.
E a cardiologia é uma área particularmente interessante para acompanhar esse movimento porque aquilo que chega ao consultório nem sempre é “meu cachorro está com problema no coração”.
Às vezes, chega como uma frase muito mais cotidiana:
“Doutor, ele só não está mais com a mesma disposição de antes.”
A inovação não está em transformar essa frase em diagnóstico. Está em oferecer ao veterinário mais uma ferramenta para descobrir quando vale a pena olhar além dela.


