Médico troca consultas por ração e transforma atendimento em ajuda para animais abandonados

Ginecologista do Espírito Santo une medicina humanizada e proteção animal há cerca de dez anos; toda a ração arrecadada é destinada a abrigos e protetores independentes

 

Uma iniciativa simples, mas carregada de empatia, tem emocionado milhares de pessoas nas redes sociais. Em vez de receber apenas dinheiro por consultas particulares, o ginecologista e obstetra Rafael Angelo Avance Baggieri, de Vila Velha (ES), oferece aos pacientes a possibilidade de pagar parte do atendimento com doações de ração, que posteriormente são destinadas a animais abandonados acolhidos por abrigos e protetores independentes.

A ação, que recentemente viralizou na internet, não nasceu para ganhar repercussão. Pelo contrário. Ela faz parte da rotina do médico há aproximadamente dez anos e surgiu como uma forma de unir duas causas que sempre fizeram parte de sua trajetória: ampliar o acesso à saúde para pacientes em situação de maior vulnerabilidade e ajudar animais que vivem em situação de abandono.

 

 

Formado em Medicina desde 2008, Rafael conta que sempre buscou conciliar o trabalho remunerado com ações voluntárias. “Desde que comecei a atuar na medicina, sempre organizei mutirões para atender populações mais vulneráveis. Sempre procurei conciliar o atendimento remunerado com o trabalho por doação. Quando um paciente quer uma consulta particular, mas não tem plano de saúde ou condições financeiras, ofereço a possibilidade de doar ração. Depois, destino todo esse material para algum abrigo de animais”, explica.

A relação com a causa animal também acompanha o médico há muitos anos. Mais do que gostar de animais, ele acredita que a palavra que melhor define esse sentimento é compaixão. “Ver animais vivendo nas ruas sempre me doeu muito. Hoje tenho oito animais em casa, sendo seis resgatados. Já cheguei a cuidar de mais de vinte, que conseguimos recuperar e encaminhar para adoção. Sempre tentei fazer a minha parte.”

Repercussão que inspira

Embora a iniciativa já exista há uma década, foi somente após um vídeo ganhar força nas redes sociais que milhares de pessoas passaram a conhecer a história do médico. Para Rafael, no entanto, o reconhecimento nunca foi o objetivo. “Volta e meia aparece alguma reportagem sobre essa ação. É sempre positivo quando isso acontece, porque pode inspirar outros profissionais a fazerem o mesmo. Não tenho vaidade em relação à repercussão pessoal. O que realmente importa é quando essa história consegue incentivar outras pessoas a ajudarem.”

 

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Apesar da grande visibilidade alcançada recentemente, ele conta que, na prática, ainda são poucos os profissionais que decidiram aderir ao modelo. “Infelizmente, não surgiram muitas pessoas interessadas em participar da iniciativa. Mas continuo acreditando que exemplos positivos podem despertar novas atitudes.”

Um grão de areia em uma causa enorme

Ao longo dos anos, Rafael viu de perto o tamanho do desafio enfrentado por quem atua na proteção animal. Segundo ele, cada nova publicação costuma gerar dezenas de pedidos de ajuda. “Depois da reportagem mais recente, cerca de cinquenta abrigos entraram em contato comigo. Isso mostra o tamanho da necessidade. É uma causa muito complexa. Costumo dizer que é um eterno enxugar gelo. A gente ajuda um, enquanto outros cinquenta ainda precisam. Mesmo assim, nunca deixarei de fazer a minha parte.”

Na avaliação do médico, a iniciativa também representa uma forma de tornar a medicina mais acessível. “Na minha área, consigo unir duas causas importantes. O paciente recebe um atendimento muito mais acessível do que pagaria em uma consulta particular convencional e, ao mesmo tempo, ajuda animais que dependem dessa solidariedade para sobreviver.”

Pequenos gestos podem mudar vidas

Para quem se sensibilizou com sua história, Rafael acredita que não é preciso realizar grandes ações para contribuir com a causa animal. “O ser humano é bom. O problema é que o mundo machuca tanto as pessoas que acabamos criando uma casca dura. Cada um pode fazer um pouco. Quem gosta da causa pode carregar um saco de ração e alguns potes plásticos no carro. Se encontrar um cachorro vivendo na rua, basta deixar um pouco de água e alimento. Parece pouco, mas para aquele animal pode significar a diferença entre continuar sofrendo ou ter um momento de cuidado. Eles não têm ninguém por eles. Acho que esse é o mínimo que podemos fazer.”

Em um cenário em que histórias de solidariedade costumam ganhar espaço justamente por serem raras, a iniciativa do ginecologista mostra que pequenas atitudes podem ultrapassar os consultórios e alcançar vidas muito além das humanas, inspirando uma corrente de empatia que beneficia pacientes, animais e toda a sociedade.

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