Treinado pelo Instituto Adimax, o cão ajuda o analista de sistemas Bruno Rodrigues de Souza em tarefas do trabalho, da academia e do supermercado
O pelo dourado, os olhos atentos e o jeito dócil não denunciam que Cheddar já acumulou uma longa ficha de ocorrências caninas. Hoje com 2 anos e oito meses, o labrador é Cão de Assistência à Mobilidade e acompanha o analista de sistemas Bruno Rodrigues de Souza, cadeirante há 18 anos, no trabalho, na academia, no mercado e nos momentos de lazer, em Salto de Pirapora, no interior de São Paulo. O caminho até essa parceria, porém, esteve longe de ser linear.
Cheddar nasceu destinado ao Programa de Treinamento de Cão de Assistência do Instituto Adimax, sediado na cidade e, segundo a instituição, o maior centro de treinamento da América Latina. Aos três meses, foi encaminhado a uma família socializadora, etapa em que voluntários acolhem o filhote por cerca de um ano e o expõem a diferentes ambientes, pessoas e situações do cotidiano.
Devolvido duas vezes
A trajetória de Cheddar fugiu do roteiro. Ele foi devolvido no processo de socialização não uma, mas duas vezes. Na terceira tentativa, já com fama de bagunceiro, chegou à casa da enfermeira Patrícia Jung, moradora de Sorocaba, que já havia socializado outro cão do programa. “Eu sabia que tinha um desafio ali, pois era um cão devolvido duas vezes e a preocupação do Instituto era justamente com o bem-estar dele, que tivesse alguém disposto a dar esse suporte emocional também. Mas eu nem imaginava o que viria pela frente”, conta Patrícia.
Desde os primeiros dias, o filhote chamou a atenção por estar sempre atento ao ambiente e parecer aprender observando as pessoas. Certa vez, Patrícia deixou Cheddar no jardim com o marido e, ao chegar à cozinha, encontrou o cão à sua espera: ele havia aprendido a abrir o portão para pets apenas observando a voluntária. “No início eu não entendi, pensei que tivesse esquecido o portão aberto, mas isso se repetiu, e compreendi que era ele. Cheddar era muito inteligente e prestava atenção em tudo”, relembra.
A curiosidade exigiu adaptações na rotina da família. Cheddar buscava objetos e criava maneiras próprias de se comunicar, como indicar quando queria ir ao jardim. “Ele era extremamente inteligente, queria pegar coisas e usava isso para se comunicar com a gente. A orientação do Instituto Adimax foi fundamental, pois, em vez de podar esse jeito explorador dele, preparamos o Cheddar para desenvolver todo seu potencial”, afirma Patrícia.
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A virada no treinamento
Após um ano de socialização, Cheddar voltou ao instituto para a etapa de treinamento, e mais uma vez a personalidade se destacou. Aprendia com rapidez impressionante, mas nem sempre se interessava pelas atividades propostas. Um dia, a equipe encontrou as baias do canil abertas e os cães soltos: Cheddar havia aberto os trincos e liberado os companheiros. Foi ali que os treinadores enxergaram nele um potencial diferente, o de ajudar pessoas com limitações de mobilidade.
“A gente percebeu que o Cheddar tinha muitas qualidades, mas talvez seu potencial não estivesse sendo direcionado para o lugar certo. O cão precisa estar totalmente à vontade na missão dele, seja para ser um cão de assistência ou um pet. É sempre ele que escolhe o que quer ser. Resolvemos oferecer ao Cheddar um outro tipo de treinamento, outros estímulos e ele nos surpreendeu”, afirma Fabiano Pereira, instrutor de cão-guia e gestor técnico do Instituto Adimax.
O novo treinamento passou a desenvolver habilidades que facilitam a rotina de quem tem mobilidade reduzida, como abrir portas e gavetas, pegar objetos do chão e acender e apagar luzes. Com os novos estímulos, o cão passou a demonstrar mais interesse pelas atividades. “Cheddar sempre foi muito inteligente e reforçamos esse talento natural dele. Foram alguns meses de trabalho até que ficasse pronto para fazer a diferença na vida de outra pessoa”, diz Eliaquim Timóteo da Cunha, responsável pelo treinamento do labrador.
Cheddar superou as expectativas e se graduou como Cão de Assistência à Mobilidade, em uma cerimônia de formatura com direito a beca. Patrícia acompanhou a conquista de perto. “Foi preciso entender que o que muitas vezes a gente achava que era coisa de bagunceiro era a inteligência dele, a curiosidade. Ele foi um cão que nos trouxe muitos desafios, mas nos deu muito amor e momentos inesquecíveis. Estou muito feliz por ele”, conta.
O match com Bruno
Com o cão pronto, o desafio passou a ser encontrar uma pessoa com mobilidade reduzida que formasse com ele o “match perfeito”. As inscrições estavam abertas havia alguns meses no site do instituto, sem que um candidato compatível tivesse sido identificado. A oportunidade surgiu durante uma visita de Bruno ao Instituto Adimax. Paraplégico desde um acidente de moto, ele conheceu a história de Cheddar e decidiu se inscrever.
“Naquele momento, percebi que essa poderia ser uma oportunidade de ampliar minha independência no dia a dia. Realizei minha inscrição pelo site e iniciei um processo muito sério, organizado e humanizado. Durante toda a seleção, fui acompanhado por uma equipe multidisciplinar composta por assistentes sociais, psicólogos e profissionais especializados, que avaliaram minha rotina, minhas necessidades e o ambiente onde vivo e trabalho”, relata Bruno.
Após um período de espera, veio a confirmação de que os dois formariam uma dupla, seguida de uma fase de adaptação com acompanhamento do instituto. “Desde os primeiros contatos, criamos uma conexão muito positiva. Com o treinamento e a orientação dos profissionais da instituição, fui aprendendo a trabalhar em conjunto com ele e, aos poucos, percebendo como sua presença poderia transformar minha rotina”, relembra.
Autonomia no dia a dia
Hoje, Bruno e Cheddar são inseparáveis. O cão pega uma pasta no armário do escritório ou as chaves que caem no chão, busca a garrafa de água ou a toalha durante os treinos e alcança produtos nas prateleiras mais baixas do supermercado. “Cheddar não é apenas um cão treinado. Ele representa autonomia, segurança, inclusão e qualidade de vida. Sua atuação me auxilia em diversas tarefas do cotidiano, contribuindo para que eu tenha mais independência em deslocamentos e atividades diárias. Receber um cão de assistência foi uma experiência transformadora para mim. Além do suporte prático, existe também um vínculo afetivo muito forte, construído diariamente com confiança, respeito e companheirismo”, afirma Bruno.
No Instituto Adimax, os cães passam cerca de um ano com famílias voluntárias e depois retornam à sede para o período de treinamento, que, segundo a instituição, dura de quatro a seis meses. A entrega dos cães formados é gratuita aos candidatos que preenchem os requisitos do programa, e a inscrição é feita pelo site www.institutoadimax.org.br.


