Irritabilidade, apatia e mudanças na interação com os responsáveis podem indicar quadros dolorosos que passam despercebidos e são confundidos com alterações de temperamento
Um cão que sempre foi dócil começa a reagir agressivamente ao toque; um gato antes próximo do responsável passa a evitar interações. Mudanças como essas podem parecer alterações de personalidade, mas também podem indicar que o animal está sentindo dor. É o que explica a médica-veterinária e pesquisadora Brunna Gomes Re. “A dor crônica leva, de fato, a mudanças comportamentais em cães e gatos, que podem variar em frequência e quantidade em cada paciente. Quando o quadro não é tratado corretamente, essas mudanças podem se estender e serem compreendidas como uma personalidade diferente”, explica.
Agressividade ou desconforto?
Entre os sinais que merecem atenção estão apatia, irritabilidade, reações agressivas ao toque e alterações no nível de interação e apego aos responsáveis. De acordo com Brunna, um animal que reage de maneira agressiva ao contato físico não necessariamente se tornou agressivo, mas pode estar manifestando desconforto diante de um quadro doloroso.
A especialista ressalta que essas manifestações não são exclusivas da dor crônica. Doenças agudas e episódios temporários de dor também podem provocar alterações semelhantes. A diferença está principalmente na duração dos sintomas e na resposta ao tratamento, sendo importante avaliar individualmente cada paciente.
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O desafio nos animais idosos
Nos animais idosos, identificar o problema pode ser ainda mais desafiador. Cães e gatos nessa fase da vida apresentam mais predisposição a condições dolorosas crônicas, como artrite, artrose e doenças dos discos intervertebrais, além de naturalmente demonstrarem redução no nível de atividade e interação. “A chave é saber reconhecer os sinais provenientes do envelhecimento natural e os sinais decorrentes de um quadro de dor não tratado, ou de um tratamento ineficaz”, destaca Brunna.
Dez anos de pesquisa com 602 pacientes
A avaliação da dor em cães e gatos exige uma abordagem multifatorial, que combine diferentes ferramentas e fontes de informação, já que os animais não conseguem expressar verbalmente a intensidade, a duração ou as características do desconforto.
Essa necessidade também esteve presente em um estudo desenvolvido por Brunna ao longo de dez anos, que reuniu dados de 602 pacientes e utilizou avaliações clínicas, escalas de dor, informações fornecidas pelos responsáveis e questionários de qualidade de vida para obter uma compreensão mais abrangente das condições de cada animal. Segundo a pesquisadora, após a publicação do trabalho, a metodologia passou a ser utilizada por instituições veterinárias, ampliando sua aplicação prática no acompanhamento da dor e da qualidade de vida dos pacientes.
Quem convive percebe primeiro
Nesse processo, a observação de quem convive diariamente com o animal é fundamental para reconhecer possíveis mudanças. “O tutor é a pessoa mais próxima do paciente e nosso melhor aliado na determinação de possíveis alterações causadas por qualquer quadro doloroso”, afirma a veterinária e pesquisadora.
Para ela, um dos principais erros é ignorar os sinais apresentados pelo animal, acreditando que sejam passageiros ou que não representem um problema de saúde. Embora nem toda mudança comportamental esteja necessariamente relacionada à dor, alterações persistentes ou significativas precisam ser investigadas.
A orientação da especialista é observar qualquer mudança na rotina e no comportamento do pet, mesmo que inicialmente pareça discreta. Quando essas alterações são intensas ou se prolongam, a avaliação veterinária é fundamental para identificar possíveis causas e determinar a necessidade de tratamento, evitando sofrimento e oferecendo mais qualidade de vida ao animal.


