Advogada relata como o cão Luca passou a fazer parte do tratamento da depressão dela; nova lei em São Paulo já reconhece cães de assistência emocional, mas especialistas cobram uma regra nacional
Chegar em casa e ter um cachorro esperando na porta, pedindo atenção e querendo brincar, faz diferença no humor e na disposição de muita gente. Em alguns casos, porém, esse vínculo vai além da companhia e passa a fazer parte do próprio cuidado com a saúde mental. É o caso da advogada Mariella Mendes Tedde, de 59 anos, que encontrou no filhote Luca, de sete meses, um apoio no tratamento da depressão.
Moradora de São Paulo, casada e mãe de uma filha, Mariella convive com a doença há mais de uma década. Ela descreve o quadro como um processo que vai além da tristeza. “É algo que minava minha energia e minha vontade de viver. Cheguei a não conseguir sair nem da cama”, conta.
Com o agravamento dos sintomas, surgiu a necessidade de buscar novas formas de apoio além do tratamento médico. Foi então que ela decidiu procurar um cão de assistência. “Eu estava em um ponto crítico. Precisava encontrar uma maneira de voltar à vida. Quando conheci o Luca, percebi que poderia ser mais do que um animal de estimação. Poderia ser uma parceria”, diz.
Por que o Australian Cobberdog?
O filhote é da raça Australian Cobberdog, escolhida justamente por características que favorecem esse tipo de trabalho, como temperamento estável, facilidade de aprendizado e disposição para interação. “A raça foi desenvolvida, entre outros propósitos, para atuar em trabalhos de assistência psiquiátrica e é ideal para esse tipo de tratamento”, explica Daniela Costa, adestradora e comportamentalista canina que acompanha o processo de treinamento de Luca. Ao lado do marido Glauco Lima, ela lidera a Service Dogs Brasil, organização especializada há mais de uma década no treinamento de cães de assistência para diferentes condições, como diabetes, autismo, mobilidade reduzida e assistência psiquiátrica.
Segundo Mariella, desde pequeno o cão já demonstrava atenção constante, sensibilidade ao ambiente e uma conexão rápida com ela, o que facilitou o início do treinamento.
A convivência começou ainda nos primeiros meses de vida do cão e foi se consolidando no dia a dia, com rotina, treino e adaptação mútua. “Não queremos transformar o Luca em um robô. Estamos construindo uma relação de confiança”, afirma.
Leia mais:
-
Saúde mental em pets existe, sim. E precisa ser levada a sério
-
Rock, Pop e MPB: os nomes de cachorro que vêm da música
-
Adotar um Cão de Resgate: Desafios e Recompensas de um Amor Transformador
A rotina que voltou a fazer sentido
A presença do cachorro passou, aos poucos, a reorganizar a rotina de Mariella. Compromissos voltaram a fazer parte do dia a dia, assim como saídas que antes eram evitadas. “Hoje vou a cafés, padarias, faço passeios e viajo com ele. Voltei a ter compromisso com a vida cotidiana. O Luca precisa de mim e eu preciso dele”, relata. Mariella também voltou a dirigir, algo que havia deixado de fazer durante os períodos mais difíceis da doença. “Uma grande conquista”, comemora a advogada.
O cão como parte do tratamento, não substituto dele
Casos como o de Mariella têm ganhado espaço no debate sobre saúde mental, mas especialistas reforçam um ponto: o cão de assistência funciona como apoio complementar, e não como substituto do acompanhamento médico e psicológico contínuo. Daniela Costa já defendeu publicamente que o diálogo entre medicina e treinamento especializado ainda precisa avançar no país, com profissionais de saúde incorporando o trabalho desses animais às equipes multidisciplinares de cuidado.
A Service Dogs Brasil, organização liderada por Daniela Costa e Glauco Lima, atua há mais de uma década no treinamento de cães de alerta médico e de assistência para diferentes condições, como diabetes tipo 1, epilepsia, autismo, mobilidade reduzida e assistência psiquiátrica. Quem tem interesse nesse tipo de serviço pode procurar a organização pelo site servicedogsbrasil.com.br. “Cada cão carrega anos de seleção e treinamento, pensado para se tornar parceiro de uma vida inteira”, resumem Glauco Lima e Daniela Costa.
O que diz a lei em São Paulo, e o que ainda falta no Brasil
Desde janeiro de 2026, São Paulo tem uma legislação municipal específica para o tema: a Lei nº 18.387/2026, sancionada em 9 de janeiro a partir do Projeto de Lei 321/2025, do vereador Gabriel Abreu. O texto amplia o direito de ingresso e permanência de pessoas com deficiência acompanhadas de cães de assistência em locais públicos ou privados da capital, incluindo comércios, espaços de lazer, táxis e aplicativos, e é uma das poucas leis do país a definir formalmente a categoria de cão de assistência emocional.
Em nível estadual, tramita na Alesp o Projeto de Lei nº 367/2023, do deputado Caio França (PSB), que garante a pessoas com deficiência intelectual, transtorno do espectro autista (TEA) ou outros transtornos psicológicos ou sensoriais o direito de circular com animal de suporte emocional em locais públicos e privados. Diferentemente do cão-guia, já regulamentado em nível federal, o projeto mira quem recorre a esses animais para controle de crises, ansiedade e regulação sensorial, e ainda depende de aprovação nas comissões, no Plenário e de sanção do governador.
Em nível nacional, a proteção ainda é parcial: a Lei federal nº 13.146/2015 garante acesso a cães de serviço treinados para tarefas específicas, mas não cobre de forma explícita os cães de assistência emocional ou psiquiátrica. O PL 33/2022, que tentaria fechar essa lacuna, foi aprovado pelo Senado em 2022 e segue parado na Câmara dos Deputados.
O modelo de outros países
Em países como os Estados Unidos, cães de assistência psiquiátrica treinados para executar tarefas ligadas a condições como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático têm o mesmo status legal de outros cães de serviço, com acesso garantido por lei em todo o território nacional. “É esse tipo de reconhecimento uniforme que o Brasil ainda precisa construir, hoje dependente de legislações pontuais como a de São Paulo”, completa Daniela Costa.
Para Mariella, o avanço da legislação é parte de uma pauta maior: a de reconhecer o papel desses animais como aliados legítimos no cuidado com a saúde. Enquanto a regulamentação não chega a todas as cidades e ao país como um todo, sua rotina ao lado de Luca segue como um exemplo de como o tratamento da depressão pode envolver, além dos médicos e terapeutas, também um companheiro de quatro patas.


