Após acidente no Rally dos Sertões, empresário encontrou nos cães de serviço uma forma de enfrentar situações que passaram a despertar medo e ansiedade
Em 2012, durante sua participação no Rally dos Sertões, o empresário Robert Nahas sofreu um acidente que marcou profundamente sua vida. Depois do trauma, ele passou a desenvolver um medo específico de ficar preso ou sem possibilidade de sair de determinados ambientes, condição conhecida como cleitrofobia.
Situações comuns do dia a dia passaram a representar um desafio: trânsito intenso, viagens de avião, ambientes fechados, filas, salas cheias e até alguns procedimentos médicos.
Cleitrofobia é diferente de claustrofobia
Embora sejam frequentemente confundidas, cleitrofobia e claustrofobia não são a mesma coisa. A claustrofobia é o medo de lugares fechados ou apertados de forma geral, enquanto a cleitrofobia é o medo específico de ficar trancado ou preso, mesmo em um espaço que não seja necessariamente pequeno.
Entre os sintomas mais comuns dessas crises estão falta de ar e respiração acelerada, coração disparado, suor frio, tontura e sensação de pânico diante de situações como portas trancadas ou elevadores lotados.
O tratamento costuma envolver diferentes frentes: a terapia cognitivo-comportamental, que ajuda o paciente a enfrentar o medo de forma gradual; técnicas de relaxamento e controle da respiração para momentos de crise; e, em casos mais graves, acompanhamento médico, com uso de medicação receitada por um profissional.
É dentro desse quadro que o suporte de um cão de serviço passa a fazer parte da rotina de quem convive com esse tipo de fobia, como no caso de Robert.
Olfato aguçado e conexão: o que a ciência explica
De acordo com o psiquiatra Gilson Hiroshi Yagi, esse “superpoder” canino está ligado principalmente ao olfato extremamente sensível dos animais e à forma como eles se conectam com os humanos.
Além do aspecto clínico, a presença desses animais também vem sendo associada a benefícios emocionais e comportamentais. Em consultórios e centros terapêuticos, eles são integrados a tratamentos de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e até em processos de reabilitação física.
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“Pacientes com autismo, transtornos de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático (TEPT) apresentam melhora em parâmetros neuroendócrinos, com redução do cortisol e aumento da ocitocina após sessões com cães. No caso de TEPT, especialmente em veteranos militares, cães de suporte emocional contribuem para reduzir pesadelos, crises de ansiedade e isolamento social”, afirma o psiquiatra Gilson Hiroshi Yagi.
Para Glauco, que atua há mais de 30 anos na área, o papel desses animais vai muito além do técnico.
“Os cães são os guarda-costas da saúde humana. Eles detectam crises, acalmam, previnem recaídas e resgatam o afeto. As vantagens vão além da expectativa e são notadas não só pela pessoa doente, como também por todos ao seu redor”, avalia o treinador.
Foi então que Robert buscou uma alternativa no treinamento de cães de serviço no Brasil e encontrou o adestrador Glauco Lima, que há anos trabalha na preparação de cães para auxiliar pessoas com diferentes necessidades.

Reconhecer o gatilho antes da crise
Segundo Glauco, experiências traumáticas podem criar gatilhos que fazem determinadas situações serem interpretadas pelo cérebro como ameaçadoras, mesmo quando não existe um perigo real naquele momento.
“O cão pode ser treinado para reconhecer sinais comportamentais do seu responsável e atuar antes ou durante uma crise, oferecendo contato, estabilidade e uma referência para que a pessoa consiga recuperar o controle”, explica Glauco Lima, treinador de cães de assistência.
De Pepe a Nick e Moly
A parceria começou com Pepe, um Border Collie preparado por Glauco para acompanhar Robert. O cão se tornou uma importante ferramenta de apoio durante viagens e situações que poderiam desencadear o medo. Pepe já faleceu.
Hoje, Robert conta com Nick, também da raça Border Collie, e Moly, uma vira-lata considerada por ele extremamente inteligente. No seu caso, existe ainda uma estratégia importante: manter sempre dois cães preparados, um titular e outro reserva.
A necessidade ficou ainda mais evidente diante da rotina de Robert. Além dos negócios que mantém nos Estados Unidos, ele realiza viagens internacionais e atua como técnico de uma equipe de motocross. Em diferentes compromissos, os cães fazem parte de sua rotina e o acompanham durante deslocamentos e situações que poderiam representar um desafio emocional. Sem eles, segundo relatos de sua equipe, boa parte dessa rotina de viagens e deslocamentos seria praticamente inviável.
Um trabalho que vai além dos comandos
Para Glauco, o trabalho não consiste simplesmente em ensinar comandos ao cão. O treinamento busca construir uma parceria na qual o animal compreenda determinados sinais do responsável e execute comportamentos previamente ensinados para oferecer suporte.
A história de Robert mostra uma das possibilidades do cão de serviço: não substituir tratamentos profissionais, mas atuar como uma ferramenta de apoio e segurança dentro de um trabalho individualizado.
Depois de um acidente que mudou sua relação com situações cotidianas, Robert encontrou nos cães uma nova maneira de recuperar autonomia e continuar viajando, trabalhando e vivendo sua rotina. De Pepe a Nick e Moly, a história também mostra que, para algumas pessoas, um cão treinado não é apenas companhia: é um parceiro preparado para estar presente justamente quando mais precisam.


