Estudo investigou como felinos avaliam o próprio tamanho antes de enfrentar espaços aparentemente impossíveis
Caixas pequenas, frestas entre móveis, vãos estreitos e lugares que aparentemente não comportariam um gato. Para Maria Angélica, produtora de conteúdo que divide um apartamento em Campinas com cinco felinos, situações como essas fazem parte da rotina.
A habilidade é tão conhecida que os gatos ganharam nas redes sociais a brincadeira de que seriam praticamente “líquidos”. A comparação chamou também a atenção da ciência: será que o gato realmente sabe o tamanho que tem antes de decidir atravessar uma abertura?
Foi justamente isso que o etólogo Péter Pongrácz, da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, resolveu investigar. Publicado em 2024 na revista científica iScience, o estudo avaliou 30 gatos domésticos diante de aberturas cujas dimensões eram progressivamente reduzidas.
Os resultados revelaram um comportamento bastante peculiar. Quando as passagens permaneciam altas, mas se tornavam cada vez mais estreitas, os gatos continuavam tentando atravessá-las, mesmo diante das menores aberturas oferecidas pelos pesquisadores.
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Quando o desafio mudava, porém, a estratégia também mudava.
Diante de aberturas progressivamente mais baixas, os animais demonstravam maior hesitação e diminuíam a velocidade antes e durante a passagem. Para o pesquisador, os resultados indicam que os gatos podem recorrer a uma representação do próprio tamanho corporal em determinadas circunstâncias.
Isso não significa que o gato faça mentalmente uma espécie de cálculo de centímetros antes de entrar embaixo do sofá. O próprio estudo considera duas estratégias possíveis e complementares: a percepção das dimensões corporais e a tentativa e erro, favorecida pela anatomia e pela maneira cautelosa como os felinos se locomovem.
E é justamente aí que está parte do segredo da aparente capacidade de “virar líquido”. A anatomia flexível dos gatos favorece a passagem por espaços bastante estreitos, o que torna experimentar uma abertura uma estratégia viável para esses animais.
Para quem, como Maria Angélica, convive diariamente com vários gatos, aquela inspeção diante de uma caixa, móvel ou fresta pode, portanto, esconder muito mais processamento de informação do que aparenta.
A ciência ainda tem perguntas a responder sobre o grau de consciência corporal dos felinos. Mas o estudo ajuda a mostrar que, antes de desaparecer por uma abertura que parecia pequena demais, o gato pode estar combinando anatomia, experiência e informações sobre as dimensões do próprio corpo.
Talvez eles não sejam líquidos. Mas são muito melhores do que nós em descobrir onde conseguem caber.


