Por Dra. Vivian Quito – Médica-veterinária
A notícia abalou tutores e profissionais em todo o Brasil. Iara, cadela de 5 anos do Corpo de Bombeiros do Ceará, faleceu durante as operações de busca às crianças Michael e Isabele em Bacabal, no Maranhão. A causa: uma torção gástrica, condição que causou a morte da cadela em pleno trabalho, longe de casa, cumprindo sua missão de salvar vidas.
A perda de Iara nos lembra de forma dolorosa que a torção vólvulo gástrica não escolhe momento, não avisa e não espera. Pode acontecer com qualquer cão, em qualquer lugar, inclusive com animais treinados, saudáveis e em plena atividade.
Quando o silêncio do corpo vira urgência
A torção gástrica não começa com um grito de dor. Começa com sinais quase imperceptíveis: um desconforto difícil de definir, uma inquietação fora do habitual, um abdômen que parece aumentar de volume rapidamente. Em poucas horas — e, em alguns casos, em questão de minutos — a vida de um cão pode estar seriamente ameaçada.
Essa condição ocorre quando o estômago do cão se dilata excessivamente com gases, líquidos ou alimento e, em seguida, gira sobre o próprio eixo. Esse giro impede que o conteúdo seja eliminado e compromete a circulação sanguínea da região. É como se o estômago ficasse aprisionado dentro do próprio corpo. Nada entra, nada sai. O sangue deixa de circular adequadamente e os tecidos começam a sofrer rapidamente.
Uma emergência que não perdoa
Quando o estômago se torce, o fluxo sanguíneo é interrompido, o tecido gástrico pode entrar em sofrimento e até necrose, e órgãos próximos, como o baço, frequentemente também são afetados. O retorno de sangue ao coração diminui de forma abrupta, levando o organismo ao choque circulatório.
Sem atendimento imediato, o risco de morte é extremamente elevado. Mesmo quando há sucesso no tratamento, trata-se de uma condição que exige cirurgia de emergência, internação e monitoramento intensivo nas horas e dias seguintes.
Quem está em maior risco?
Embora qualquer cão possa desenvolver torção gástrica, alguns apresentam risco significativamente maior devido a características anatômicas e genéticas. Cães de médio e grande porte, especialmente aqueles com tórax profundo, são os mais acometidos.
Entre as raças mais associadas estão Dogue Alemão, Pastor Alemão, Dobermann, Weimaraner, Setter Irlandês, São Bernardo, Afghan Hound e Poodle Standard. A idade avançada e o histórico familiar também aumentam consideravelmente a probabilidade de ocorrência.
Além da anatomia, o comportamento e o estado emocional do animal exercem influência direta. Cães ansiosos, estressados ou que vivem em ambientes muito agitados tendem a comer mais rápido, engolir maior quantidade de ar, produzir mais gases e apresentar alterações na motilidade gastrointestinal.
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No caso de Iara, é possível que o estresse da missão de busca, combinado com o esforço físico intenso e possivelmente a ansiedade típica do trabalho de campo, tenham contribuído para desencadear a condição. Isso reforça um ponto fundamental: não é apenas o que o cão come, mas como ele vive, sente e reage ao ambiente.
Reconheça os sinais de alerta
Os sinais clínicos costumam surgir de forma súbita e evoluir rapidamente:
- Abdômen inchado, rígido e dolorido
- Tentativas repetidas de vomitar sem sucesso
- Salivação excessiva
- Inquietação intensa
- Dificuldade respiratória
- Fraqueza ou colapso
- Gengivas pálidas
- Batimentos cardíacos acelerados
A associação entre abdômen distendido e tentativas improdutivas de vômito caracteriza uma emergência absoluta.
Cada minuto conta
Diante da suspeita, não se deve esperar para ver se passa, observar em casa ou tentar qualquer medida paliativa. A única atitude segura é levar o animal imediatamente a um serviço veterinário de emergência. Cada minuto conta e pode ser decisivo para a sobrevivência.
No caso de cães de trabalho como Iara, que estão em missões longe de centros urbanos, a distância até uma clínica veterinária pode ser fatal. É uma realidade que reforça a necessidade de protocolos específicos para animais em serviço.
Como proteger seu pet
Não existe uma forma de prevenção absoluta, mas alguns cuidados reduzem significativamente o risco:
- Fracionar a alimentação em duas ou mais refeições diárias
- Evitar exercícios antes e após as refeições
- Oferecer um ambiente calmo durante a alimentação
- Impedir que o cão coma muito rapidamente (use comedouros lentos)
- Reduzir o estresse e a ansiedade na rotina
- Manter água fresca disponível, mas evitar grande volume após exercícios
Em cães considerados de alto risco, especialmente aqueles que já foram acometidos pela condição, a gastropexia preventiva — procedimento cirúrgico que fixa o estômago à parede abdominal — pode ser discutida como estratégia de proteção com seu veterinário.
A lição de Iara
A morte de Iara é uma perda que vai além dos Bombeiros do Ceará. É um alerta para todos os tutores sobre uma condição grave, silenciosa e potencialmente fatal. Cães de trabalho, como ela, dedicam suas vidas a salvar outras vidas. Merecem que seus tutores e responsáveis estejam preparados para reconhecer emergências médicas e agir rapidamente.
A torção vólvulo gástrica não avisa e não espera. Mas o tutor atento, que conhece seu cão, percebe mudanças sutis e age rapidamente, pode ser a diferença entre a vida e a perda.
Informação salva vidas. E, quando se trata de quem amamos — seja um pet de família ou um herói de quatro patas em missão —, isso muda tudo.



