Cães que salvam vidas: A revolução dos pets de alerta médico e assistência no Brasil

*Por Marcos Nishikawa e Glauco Lima

 

“O maior mal do século está na cabeça”

Essa frase, que sintetiza nossa visão sobre os desafios da saúde contemporânea, resume um dos maiores problemas da atualidade: o crescimento exponencial de condições que afetam milhões de brasileiros.

Os números impressionam. Segundo o Censo IBGE 2022, divulgado em 2025, cerca de 2,4 milhões de brasileiros declararam ter recebido diagnóstico de autismo (TEA), representando aproximadamente 1,2% da população com 2 anos ou mais. Estima-se que cerca de 11 milhões de pessoas convivam com TDAH, enquanto 12 milhões sofrem de depressão, segundo dados da OMS. A epilepsia atinge entre 2 a 3 milhões de brasileiros, e o diabetes já alcança a marca de 20 milhões de pessoas, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes.

Nesse cenário desafiador, uma transformação silenciosa ganha força: a ascensão dos cães de assistência. Assim como os cães-guia revolucionaram a vida de pessoas com deficiência visual, hoje vemos cães treinados para mobilidade, apoio emocional, estresse pós-traumático e detecção precoce de crises médicas assumindo um papel essencial na saúde e na inclusão.

E não estamos falando de um futuro distante. Essa realidade já existe aqui, inspirada em experiências consolidadas internacionalmente, mas adaptada à realidade brasileira.

A parceria essencial: criação responsável e treinamento especializado

Nossa parceria representa exatamente o que consideramos o futuro da cinofilia no Brasil: a união entre criação responsável e treinamento especializado para formar cães verdadeiramente aptos a transformar vidas.

Com mais de 30 anos de experiência no Golden Trip Kennel, tenho visto a cinofilia brasileira evoluir significativamente. Mas hoje, nosso desafio vai além de criar cães bonitos ou campeões de exposição. Precisamos formar parceiros capazes de promover inclusão, autonomia e qualidade de vida para pessoas que enfrentam as condições de saúde citadas anteriormente.

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Por outro lado, como treinador especializado em cães de assistência e alerta médico, posso afirmar: o trabalho começa muito antes do treinamento formal. A genética, o temperamento e a socialização precoce são determinantes para o sucesso desses parceiros de quatro patas.

O Goldendoodle: estrela em ascensão

Uma das raças que tem se destacado nesse cenário é o Goldendoodle – resultado do cruzamento entre Golden Retriever e Poodle. Essa combinação estratégica reúne:

  • A inteligência e facilidade de treinamento do Poodle
  • A docilidade e sensibilidade emocional do Golden Retriever

Nos Estados Unidos, Goldendoodles são amplamente utilizados por organizações especializadas, especialmente no suporte a crianças dentro do espectro autista. Aqui no Brasil, começamos a trilhar esse caminho promissor, mas com um diferencial: a conscientização de que não basta ter a raça certa.

Não é qualquer peludo: a importância da escolha criteriosa

Aqui vai um alerta fundamental que fazemos para todas as famílias: não basta escolher a raça certa. É essencial ter critério rigoroso na seleção do filhote.

Muitas pessoas se apaixonam pela fofura de um filhotinho e tomam decisões por impulso. Mas quando falamos de cães de assistência ou alerta médico, precisamos avaliar temperamento, resiliência emocional e potencial de trabalho desde cedo.

Como criador, meu papel é identificar, ainda na ninhada, quais filhotes apresentam as características comportamentais adequadas. Como treinador, avalio se aquele filhote específico tem o perfil para atender às necessidades daquela família em particular.

Adquirir aleatoriamente um filhote sem esses critérios pode comprometer todo o projeto e gerar frustração tanto para a família quanto para o animal. É de partir o coração ver expectativas frustradas por falta de planejamento adequado.

O caminho até o “match” perfeito

O processo vai muito além de ensinar comandos. Quando uma família nos procura, começamos com entrevistas detalhadas para entender profundamente suas necessidades, criando um verdadeiro mapa personalizado.

E tem um detalhe crucial: o tempo. Sabemos que famílias ansiosas querem levar o peludo para casa imediatamente, mas em muitos casos o ideal é que o cão passe de um ano e meio a dois anos em treinamento antes da integração definitiva. Parece muito? É o que garante as maiores chances de sucesso no que chamamos de “match” – aquele encontro perfeito entre cão e família.

Vamos dar um exemplo prático: imagine entregar um filhote diretamente para uma família com uma criança que apresenta crises de agressividade, sem que o cachorro tenha sido previamente dessensibilizado para esse tipo de situação. O resultado pode ser desastroso – o cão desenvolve medos, aversão, e toda aquela expectativa se perde.

Um futuro mais inclusivo com quatro patas

Essa nova fase da cinofilia exige que criadores estudem mais e treinadores estejam cada vez mais preparados. É uma responsabilidade enorme, mas também uma oportunidade histórica de transformar vidas.

Diante dos números que apresentamos – milhões de brasileiros convivendo com condições que limitam sua autonomia e qualidade de vida –, os cães de assistência e alerta médico emergem como ferramentas poderosas de inclusão e saúde.

E podemos afirmar com orgulho: o Brasil está dando seus primeiros passos consistentes nessa direção, construindo uma base sólida de conhecimento e experiência.

Para as famílias que sonham com esse parceiro

Se você está considerando ter um cão de assistência ou alerta médico na sua família, nossa orientação é: procure ajuda especializada desde o início. Converse com criadores responsáveis, busque treinadores com experiência comprovada na área e, acima de tudo, esteja preparado para investir tempo nesse processo.

O resultado vale cada segundo de dedicação. Ver uma criança com autismo desenvolver vínculos sociais através do seu peludo, ou uma pessoa com diabetes recuperar autonomia sabendo que tem um alerta de quatro patas ao seu lado… isso não tem preço.

Nossos pets sempre foram família. Agora, eles também são guardiões da nossa saúde e bem-estar.

*Marcos Nishikawa é criador pioneiro de Golden Retrievers no Brasil e fundador do Golden Trip Kennel, com mais de 30 anos dedicados à cinofilia responsável.
*Glauco Lima é treinador especializado em cães de assistência e alerta médico, dedicado a promover a inclusão e autonomia através do vínculo entre humanos e cães.

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