Iniciativa de Priscila Nascimento reúne moradores para castrar, vacinar, identificar e encaminhar para adoção os felinos de um condomínio em Campo Grande, na Zona Oeste da capital fluminense
Eles chegaram pulando muros, passando pelos portões ou simplesmente foram deixados ali. Em um condomínio no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, gatos abandonados encontraram algo raro: nome, história, cuidado veterinário e uma rede de moradores disposta a zelar por eles. Assim nasceu a colônia Os Gatos do 85, que hoje reúne cerca de 20 felinos comunitários.
O nome do condomínio não é divulgado por uma razão prática: evitar que o local se torne ponto de novos abandonos. A região, segundo o próprio coletivo, está entre as que historicamente concentram o maior número de denúncias de maus-tratos a animais no município.
Tudo começou com a Mia
O condomínio foi inaugurado em 2015 e, desde o início, recebia gatos vindos de um bairro marcado pelo abandono de animais. A virada aconteceu quando a moradora Priscila Nascimento adotou a Mia, a gata que vivia no local havia mais tempo, desde aquele ano. “E a partir dela é que comecei a fazer a gestão e CED da Colônia”, conta.
A sigla CED significa Capturar, Esterilizar e Devolver, método adotado por protetores e recomendado por entidades de bem-estar animal como forma ética de controle populacional de colônias felinas. Os animais são recolhidos, castrados, vacinados e devolvidos ao território onde vivem, o que estabiliza o tamanho do grupo e reduz brigas, fugas e a transmissão de doenças.
Saúde em dia para todos
Hoje, todos os gatos são castrados assim que aparecem, machos e fêmeas, vacinados contra a raiva e microchipados. A maioria também já fez o teste para FIV e FeLV, duas viroses que comprometem o sistema imunológico dos felinos, e recebeu a vacina V5. A gata diagnosticada com FeLV tomou a V4, que não inclui o componente contra a leucemia felina.
O número de integrantes da colônia se mantém estável, e isso diz muito sobre o problema do abandono. “São 20 gatos comunitários na Colônia. Sempre tem essa quantidade porque quando 1 é adotado aparece outro. Quando algum morre também aparece outro. Não tem fim”, resume Priscila. Cães também surgem de tempos em tempos, a maioria de pelagem preta. Muitos já foram adotados e, hoje, resta apenas um.
Leia mais:
-
Morte de gatos no Museu do Ipiranga mobiliza defensores dos animais e comunidade local
-
Você sabe o motivo pelo qual os gatos gostam de se esconder?
-
“Praia dos Gatos” em Florianópolis: um refúgio à beira-mar para felinos resgatados
Microchip e QR Code contra o desaparecimento
Cada gato usa uma coleira com QR Code que leva ao seu perfil na plataforma Animal Tag. A identificação mostra a quem encontrar o animal que ele é comunitário, não está abandonado, recebe cuidados, é microchipado e está disponível para adoção responsável.
A microchipagem de todo o grupo teve um objetivo claro. “Eu levei todos para microchipar para não darem sumiço neles. Algo que aconteceu aqui no passado”, relata Priscila. Segundo ela, a medida também funciona como fator de dissuasão: “Parece que o microchip intimida moradores contrários a fazerem isso, ficam com medo de serem denunciados”.
O respaldo da lei
A atuação do coletivo ganhou reforço com o novo Código Estadual de Direito dos Animais do Rio de Janeiro, a Lei 11.096/2026, em vigor desde janeiro. O texto reconhece os animais como seres conscientes e sencientes, dotados de dignidade própria, e dedica um capítulo específico aos animais comunitários: aqueles sem responsável individual identificado que estabelecem vínculos de dependência e cuidado com a comunidade local.
Pela norma, esses animais devem ser mantidos preferencialmente no local onde se encontram, salvo risco à sua integridade física ou à saúde pública, sob vigilância e cuidados que ainda serão definidos em regulamento. O código também proíbe impedir, por qualquer meio, a oferta de água, alimento ou assistência veterinária a animais comunitários em espaços e repartições públicas.
A lei endurece ainda as regras contra o abandono, com multa de mil a 1.500 UFIRs-RJ, valor dobrado em caso de reincidência. Em situações comprovadas de maus-tratos, o infrator passa a responder por todas as despesas veterinárias e deve ressarcir inclusive os protetores independentes que tenham custeado o atendimento ao animal.
Uma rede de solidariedade
A manutenção da colônia depende de gente disposta a ajudar. “São umas 9 pessoas alimentando eles com frequência e outras esporadicamente. Também faço vaquinha para manutenção deles, divulgo pelo Instagram”, explica a criadora do projeto. Alguns poucos condôminos contribuem com a vaquinha, assim como apoiadores que não moram no local.
Nas redes sociais, com perfis no Instagram, Facebook, Threads e WhatsApp, o coletivo aposta na transparência da prestação de contas e nas histórias individuais de cada gato para sensibilizar novos apoiadores e educar sobre a posse responsável. Priscila também criou um site para o projeto, que detalha a forma de gestão da colônia.
Histórias que viraram lar
Priscila já adotou sete gatos da própria colônia, muitos deles com trajetórias de superação. Um foi adotado depois de perder uma das patas. Outra quase morreu em decorrência da platinossomose,conhecida como a “doença da lagartixa”, causada por um parasita que atinge o fígado e as vias biliares dos felinos, e ficou cega. Outro, diagnosticado com Síndrome de Pandora, condição associada ao estresse que afeta o trato urinário dos gatos, foi adotado junto com a mãe, porque os dois não se separam.
Há ainda um gato em lar temporário na casa de Priscila, retirado do condomínio depois que tentaram pegá-lo para mantê-lo em situação de negligência, o que configura maus-tratos.
Convivência possível
Mais do que cuidar de 20 gatos, Os Gatos do 85 mostram que é possível transformar um cenário de vulnerabilidade em convivência harmônica. Ao dar nome e voz a animais que costumam ser invisíveis, o projeto combate o abandono, incentiva a adoção responsável e lembra que o cuidado com os animais comunitários pode, e deve, ser uma tarefa coletiva.
Para conhecer o projeto, apoiar a vaquinha ou adotar um dos gatos: priscilanascimento.my.canva.site/osgatosdo85 e Instagram @osgatos85


