Hábito de recompensar os animais é tão comum no Brasil quanto nos Estados Unidos, mas petiscos representam só 5% do pet food nacional; indústria aposta em referências afetivas para ampliar a categoria
O churrasco ocupa um lugar à parte na cultura brasileira. Mais do que uma refeição, é ritual de encontro: está nos almoços de domingo, nos aniversários, nas comemorações de fim de ano e nas reuniões com amigos. E, em um número crescente de lares, o cão também está lá, acompanhando o movimento perto da churrasqueira e participando da festa como mais um membro da família.
Essa mudança no lugar que o animal ocupa dentro de casa, que deixou o quintal para fazer parte da rotina e dos momentos afetivos, vem sendo observada de perto pela indústria. E já aparece nas prateleiras: fabricantes de alimentação animal passaram a traduzir referências da cultura brasileira em produtos pensados para os pets.
Muito agrado, pouco petisco
Os números ajudam a explicar o interesse. Dados da BCG Pet Nutrition Consumer Survey e da NIQ apontam um índice de 31% para as ocasiões de recompensa e agrado aos pets no Brasil, patamar semelhante ao registrado nos Estados Unidos. A diferença aparece no carrinho de compras: por aqui, os petiscos representam apenas 5% do total de pet food, enquanto no mercado norte-americano essa fatia chega a 24%.
Em outras palavras, o brasileiro gosta de agradar o cão, mas nem sempre recorre a produtos desenvolvidos para isso. “O hábito de agradar os animais já faz parte da rotina dos tutores, mas ainda existe potencial para ampliar o conhecimento e o consumo de produtos desenvolvidos especificamente para eles”, afirma Ricardo Marinho, gerente de Marketing de Pedigree na Mars Pet Nutrition Brasil.
O espaço para crescimento se soma a um setor que já é robusto. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e o Instituto Pet Brasil (IPB), o país reúne cerca de 160,9 milhões de animais de estimação, e a projeção das entidades é de que o mercado pet brasileiro movimente R$ 77,2 bilhões em 2025.
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A brasilidade como estratégia
É nesse cenário que a cultura nacional passa a ser tratada como território de inovação. Um exemplo é a própria Pedigree, que lançou em outubro o Biscrok Churrasco, biscoito crocante com sabor e aroma inspirados no prato e desenvolvidos para cães. O produto chega depois da linha de sachês Pratos do Brasil, inspirada na culinária nacional, com versões como churrasco, galinhada, lombinho, picadinho e peixada.
Segundo Marinho, o lançamento faz parte de uma estratégia de valorização da brasilidade que a empresa começou a explorar tanto em campanhas quanto no desenvolvimento de produtos. A embalagem estampa um cão sem raça definida, o popular vira-lata, escolha que conecta o produto a uma plataforma da marca voltada à valorização desses animais e à adoção responsável.
Petisco é agrado, não refeição
Apesar da referência comum, sachês e biscoitos cumprem papéis diferentes na alimentação do animal. Enquanto a linha de sachês se enquadra como alimento completo e balanceado, o biscoito é uma opção de petisco, voltada a momentos de recompensa e agrado. Verena Cunha, diretora de Pesquisa & Desenvolvimento da Mars Pet Nutrition no Brasil, resume a proposta: “O sabor e aroma Churrasco traduzem uma referência afetiva dos brasileiros para uma experiência desenvolvida especialmente para os cães”. Segundo ela, o desenvolvimento parte sempre do respeito às necessidades dos animais.
A orientação é que a quantidade oferecida siga o guia alimentar presente na embalagem, considerando o porte, a idade e o nível de atividade do cão. Petiscos complementam a rotina, mas não substituem a alimentação principal.
Se o churrasco é, para muitos brasileiros, sinônimo de reunir quem se ama, a leitura da indústria é que o cão já faz parte dessa roda. O desafio, agora, é transformar o hábito de agradar em consumo de produtos feitos sob medida para ele.


