Levantamento com 41 ONGs aponta que felinos de pelagem escura demoram mais para encontrar uma família; veterinário reforça que a cor não define temperamento
A cor da pelagem ainda pode mudar o destino de um gato no Brasil. Em pesquisa realizada pelo Cobasi Cuida em fevereiro de 2026, 56% das organizações de proteção animal ouvidas afirmaram que gatos pretos costumam esperar mais tempo por uma família do que felinos de outras cores. O dado ganha relevância no Dia de Conscientização pelo Gato Preto, celebrado em 27 de outubro, data que convida a população a rever crenças sem fundamento que ainda prejudicam esses animais.
O levantamento ouviu 41 ONGs de diferentes regiões do país. A mesma proporção de entidades, 56%, relatou já ter recebido casos de abandono de gatos pretos associados a superstições. Os números não permitem generalizações para toda a população brasileira, mas indicam que crenças populares podem ter consequências concretas para os animais.
Cor não define comportamento
Para o médico-veterinário Luiz Felipe Fornaro, que atua no atendimento clínico geral e é pós-graduando em Medicina Felina no Hospital Veterinário Taquaral, em Campinas, a pelagem não diz nada sobre o temperamento ou o valor de um animal. “Gatos pretos não são mais agressivos nem têm um temperamento específico por causa da cor. Cada gato tem sua própria personalidade, influenciada pela genética, pela socialização, pelas experiências e pelo ambiente em que vive”, explica.
A associação entre gatos pretos e azar atravessou gerações e costuma ganhar visibilidade nas semanas próximas ao Halloween. Fornaro pondera, no entanto, que não há registros nacionais consistentes que comprovem aumento de maus-tratos contra esses animais nesse período. Por isso, a proteção precisa ser uma preocupação permanente, sem alarmismo e sem minimizar situações reais de violência.
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Adoção começa pela rotina da família
Escolher um gato envolve fatores que vão muito além da aparência. Temperamento, necessidades de cuidado, rotina dos moradores e condições do ambiente são decisivos para uma convivência segura e duradoura. “Antes de adotar, a família precisa avaliar se tem tempo, condições e um ambiente seguro para cuidar do animal durante toda a vida dele. Também é importante conhecer seu temperamento e suas necessidades, especialmente quando já existem outros animais na casa”, orienta o veterinário.
A adoção responsável inclui alimentação adequada, água fresca, vacinação, acompanhamento veterinário e castração quando indicada. Dentro de casa, caixas de areia limpas, brinquedos, arranhadores, esconderijos e espaços elevados favorecem o bem-estar dos felinos. Telas em janelas e sacadas, somadas à restrição do acesso livre à rua, ajudam a prevenir atropelamentos, brigas, doenças, intoxicações e desaparecimentos.
Uma boa foto também faz diferença
A forma como os gatos são apresentados ao público pode influenciar as chances de adoção. Como a pelagem escura dificulta algumas fotografias, imagens bem iluminadas, que mostrem o rosto e o comportamento do animal, ajudam os interessados a conhecê-lo melhor. Segundo Fornaro, a dificuldade técnica de fotografar esses felinos não deve servir de motivo para reduzir sua divulgação por ONGs e protetores.
Sinais de alerta pedem atenção
Desnutrição, feridas, fraturas, falta de cuidados básicos, medo intenso e apatia podem indicar que um gato precisa de ajuda. Isoladamente, esses sinais não comprovam violência, mas justificam avaliação veterinária e, diante de suspeita de maus-tratos, denúncia às autoridades competentes. “Crenças e superstições nunca justificam violência contra animais. É importante agir com segurança, registrar informações quando possível e denunciar situações suspeitas”, alerta o especialista.
Para o veterinário, a mensagem da data é simples: um gato preto merece as mesmas oportunidades que qualquer outro. “Gatos pretos são capazes de criar vínculos, oferecer companhia e receber afeto como qualquer outro gato. A adoção deve ser baseada em responsabilidade, respeito e bem-estar, nunca em superstições”, conclui Fornaro.


