Estudos mostram que choramingos podem carregar pistas sobre estresse, excitação e tentativas de comunicação, mas especialistas alertam: nenhum som deve ser interpretado isoladamente
Quem convive com um cachorro provavelmente já presenciou a cena: ele se aproxima, olha fixamente para o tutor e começa a emitir um som fino, semelhante a um choro. Em outros momentos, o choramingo aparece diante da porta, próximo ao pote de comida, durante uma viagem de carro ou aparentemente sem motivo. Mas será que o cachorro está realmente chorando?
A ciência mostra que a resposta é mais complexa do que simplesmente associar o som à tristeza ou à dor. Os cães possuem um repertório de vocalizações que participa da comunicação com outros animais e também com os seres humanos. O choramingo pode aparecer diante de estresse, expectativa, frustração, busca por atenção ou desconforto. O desafio é que ainda não existe uma espécie de “dicionário” capaz de atribuir um significado específico a cada som.
E há uma distinção importante. Cães produzem lágrimas, mas a lacrimação tem principalmente funções fisiológicas, como proteção e lubrificação dos olhos. Por isso, olhos constantemente lacrimejando, com vermelhidão, secreção ou coceira, merecem avaliação veterinária e não devem ser automaticamente interpretados como manifestação emocional.
A ciência já consegue ouvir algumas diferenças
Pesquisadores da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, encontraram evidências interessantes sobre o que pode estar escondido nas vocalizações. Em um estudo publicado na Scientific Reports, em 2021, foram analisados 4.086 choramingos produzidos por 167 cães durante situações de separação de seus tutores.
Os cientistas encontraram características acústicas associadas ao nível de excitação e estresse dos animais. Cães que apresentavam problemas relacionados à separação, por exemplo, tinham maior probabilidade de produzir determinadas irregularidades acústicas nos choramingos. Animais mais ativos ou que tentavam escapar também produziam sons com características diferentes. Ou seja: não é apenas o fato de o cachorro choramingar. A própria estrutura do som pode carregar informações sobre seu estado emocional.
Outros trabalhos reforçam essa capacidade comunicativa. Em um experimento publicado em 2016 na revista Behavioural Processes, pesquisadores observaram que cães modificavam comportamentos destinados a chamar a atenção de acordo com o olhar dos tutores. Quando recebiam contato visual direto, passavam mais tempo choramingando e olhando para o rosto das pessoas do que quando o tutor desviava o olhar.
A descoberta ajuda a explicar algo que muitos tutores percebem intuitivamente: em determinadas situações, o choramingo pode funcionar como uma ferramenta de comunicação e busca por atenção. Isso não significa que o cachorro esteja “fingindo” um choro. Significa que ele pode ter aprendido que determinado comportamento produz uma resposta no humano.
E quando o choro pode significar dor?
Aqui está um dos pontos que exigem mais cuidado. Vocalizar pode acompanhar a dor, mas a ausência de vocalização não significa ausência de sofrimento.
Escalas desenvolvidas cientificamente para avaliação de dor em cães não consideram apenas os sons. Um trabalho da Universidade de Glasgow publicado no Veterinary Record já em 2001 ajudou a desenvolver uma escala baseada em diferentes categorias comportamentais, incluindo postura, mobilidade, atividade, resposta ao toque, atenção à região dolorida, interação com pessoas e vocalização.
Diretrizes posteriores para manejo da dor em cães e gatos também reforçaram que as mudanças comportamentais estão entre os principais instrumentos disponíveis para reconhecer e acompanhar a dor nos animais.
Por isso, mais importante do que esperar que um cachorro “chore de dor” é identificar mudanças. Um animal que sempre foi pouco vocal e passa repentinamente a gemer, evita subir escadas, apresenta dificuldade para levantar, deixa de brincar, procura isolamento, muda a postura ou reage ao toque pode estar demonstrando desconforto mesmo sem emitir um único som.
Uma pesquisa publicada em 2026 na PLOS ONE, envolvendo 530 tutores de cães e 117 pessoas que não tinham cães, também mostrou como reconhecer a dor apenas pelo comportamento pode ser desafiador. Entre os sinais avaliados como mais relacionados à possibilidade de dor estavam mudança de personalidade, hesitação para apoiar ou levantar uma pata, alterações de humor e redução das brincadeiras.
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O contexto continua sendo fundamental
Apesar dos avanços, ainda existe uma lacuna importante. A ciência consegue identificar padrões e características acústicas associadas a determinados estados, mas não permite afirmar que um tipo específico de choramingo significa necessariamente “estou com dor”, “estou triste” ou “quero atenção”.
É por isso que o som precisa ser interpretado junto com o restante do comportamento.
Um cachorro que choraminga diante da porta enquanto olha para a guia provavelmente oferece pistas diferentes daquele que geme ao tentar se levantar. Da mesma maneira, um animal que vocaliza quando o tutor deixa a residência e apresenta agitação, tentativas de fuga ou outros comportamentos relacionados à separação precisa ser observado dentro daquele contexto.
Até a repetição pode ensinar muito. Perguntas simples ajudam: quando o comportamento começou? O que acontece imediatamente antes? Em quais situações ele desaparece? Surgiram mudanças de apetite, sono, mobilidade ou disposição? O cachorro passou a evitar alguma atividade que fazia normalmente?
Vídeos gravados pelo tutor também podem ser importantes. Pesquisas recentes sobre dor e problemas comportamentais em cães têm destacado justamente a combinação entre histórico, observação clínica, registros feitos em casa e mudanças ao longo do tempo para diferenciar alterações comportamentais de possíveis condições dolorosas.
Antes de silenciar o choro, tente entendê-lo
Talvez esse seja o ponto em que ciência e convivência se encontram. O cachorro não precisa necessariamente estar “chorando” no sentido humano da palavra para estar comunicando algo relevante.
O choramingo pode ser um pedido, uma manifestação de excitação, uma resposta ao estresse, um comportamento aprendido ou uma das pistas de desconforto e dor. Sozinho, dificilmente fornece a resposta completa.
Por isso, quando o comportamento aparece de maneira repentina, torna-se persistente ou vem acompanhado de outras alterações físicas ou comportamentais, a avaliação de um médico-veterinário é importante.
No fim, a ciência ainda não consegue traduzir cada choramingo. Mas já nos ensina algo talvez mais valioso: para compreender o que um cachorro está tentando dizer, precisamos ouvir o som e, ao mesmo tempo, observar todo o resto.


