O seu pet pode se beneficiar da cannabis medicinal?

Médica veterinária explica como os canabinoides chegaram à clínica animal, em quais condições já são usados e o que ainda falta avançar no Brasil

 

Poucos temas no universo da saúde animal geram tanta curiosidade e, ao mesmo tempo, tanta dúvida quanto ao uso terapêutico da cannabis. Para quem acompanha a medicina humana, o debate já é familiar. Mas o que muitos responsáveis por animais ainda não sabem é que cães, gatos e outros pets também possuem o sistema endocanabinoide, a mesma rede biológica que explica por que os compostos da planta têm efeitos no organismo. E é por isso que a cannabis medicinal vem ganhando espaço crescente dentro dos consultórios veterinários.

Um pouco da história

A história do uso terapêutico da cannabis não começa ontem. O imperador chinês Shen Nung, por volta de 2.700 a.C., já registrava a planta em sua farmacopeia. No Egito, o Papiro de Ebers, datado de 1.550 a.C., descrevia preparações contra inflamações e dores. Depois de décadas de proibição e estigma, o interesse científico foi retomado com a descoberta do sistema endocanabinoide no século XX, e hoje a regulamentação da Anvisa permite o uso controlado de derivados como o canabidiol (CBD) no Brasil.

Na medicina veterinária, esse avanço chegou com algum atraso, mas está avançando com consistência. A médica-veterinária Carollina Mariga, especialista no uso de cannabis em animais e atuante no Rio Grande do Sul, acompanha essa transformação de perto.

Como a cannabis chegou à clínica veterinária

Os principais campos de aplicação na veterinária hoje incluem o manejo da dor crônica, doenças dermatológicas, alterações comportamentais, neurologia e cuidados paliativos em pacientes oncológicos. Segundo Carollina, o uso costuma ser integrado a outras abordagens terapêuticas, e não uma substituição aos tratamentos convencionais.

“Mais do que substituir tratamentos convencionais, a terapia canábica costuma ser utilizada de forma integrada. Em muitos casos, ela pode contribuir para a melhora da qualidade de vida do paciente e, sob acompanhamento veterinário, auxiliar na redução da necessidade de algumas medicações ou de suas doses, sempre de forma individualizada e baseada na resposta clínica de cada animal”, avalia a especialista.

Principais áreas de uso da cannabis na medicina veterinária

• Manejo da dor crônica
• Dermatologia (incluindo dermatite atópica e cicatrização de feridas)
• Alterações comportamentais e ansiedade
• Neurologia
• Cuidados paliativos em pacientes oncológicos
• Pesquisas iniciais em protocolos anestésicos

O que já funciona e o que ainda precisa de mais pesquisa

As pesquisas em medicina veterinária investigam o uso dos canabinoides em áreas como dermatologia, controle da dor, comportamento, oncologia e inflamação crônica. Na dermatologia, há estudos avaliando tanto o uso oral quanto o tópico em condições como dermatite atópica. Há também pesquisas explorando possíveis aplicações em protocolos anestésicos e no manejo da ansiedade.

Leia mais: 

No entanto, Carollina faz uma ponderação importante: “Ainda são necessários estudos clínicos mais robustos para definir com maior precisão a eficácia, segurança, doses ideais e indicações específicas para cada espécie animal”, alerta.

Para o químico Ubiracir Fernandes, conselheiro do Conselho Federal de Química, os usos considerados sólidos são aqueles que já deram origem a registros sanitários, como medicamentos à base de canabidiol purificado para epilepsias refratárias. Na avaliação dele, a evolução da cannabis medicinal passa pela transição de extratos genéricos para produtos farmacêuticos com composição química padronizada.

O preconceito ainda existe, e a educação é a resposta

Apesar do avanço científico, o estigma em torno da cannabis ainda persiste. Grande parte das pessoas a associa exclusivamente ao uso recreativo, sem conhecer o potencial terapêutico dos canabinoides. Na experiência de Carollina, os responsáveis pelos animais chegam cada vez mais informados e abertos ao diálogo, mas ainda existem dúvidas e receios que precisam ser esclarecidos com transparência.

“A melhor forma de vencer preconceitos é por meio do conhecimento. À medida que mais pesquisas são publicadas e mais pacientes apresentam melhora na qualidade de vida com o acompanhamento adequado, a terapia canábica passa a ser vista com mais naturalidade dentro da medicina veterinária”, diz a veterinária.

O cenário brasileiro e o peso da regulação

O mercado de cannabis medicinal no Brasil registrou crescimento expressivo. O setor movimentou R$ 971 milhões em 2025, representando alta de 38,5% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Kaya Mind. O mesmo estudo aponta que o país encerrou 2025 com cerca de 873 mil pacientes em tratamento com cannabis medicinal.

Para a medicina veterinária especificamente, a falta de uma legislação clara ainda representa um obstáculo. Ubiracir Fernandes é direto ao avaliar a situação:

“Enquanto não ocorre uma regulamentação mais efetiva que permita o plantio, a produção e a comercialização em território nacional, o país permanece dependente de importações e desperdiça seu potencial agrícola, científico e econômico”, alerta o conselheiro.

A aprovação do Projeto de Lei 399/2015, que propõe regras mais claras para pesquisa, produção, comercialização e uso medicinal da cannabis no Brasil, está no horizonte do setor. Para veterinários e responsáveis por animais, isso pode significar maior acesso a produtos de qualidade, redução de custos e incentivo ao desenvolvimento de pesquisas voltadas às necessidades dos pets.

O que fazer se você quer considerar a cannabis para o seu pet

O primeiro passo é sempre conversar com o médico veterinário de confiança. A terapia canábica não deve ser iniciada por conta própria nem com base em indicações informais. O profissional vai avaliar o histórico clínico do animal, as condições que podem se beneficiar do tratamento e, se for o caso, indicar o produto adequado com dosagem e acompanhamento.

Carollina reforça que a abordagem deve ser individualizada, baseada na resposta clínica de cada animal, e sempre integrada ao cuidado veterinário convencional. A cannabis medicinal é uma ferramenta que chegou para somar, não para substituir.

Relacionadas

- Publicidade -spot_img

Últimas notícias