Quando a falsificação de medicamentos invade o lar: o cenário de risco para os pets

*Por Daniela Bochi

 

Daniela BochiOs recentes casos de falsificação de bebidas com metanol reascenderam o debate sobre os riscos da comercialização de produtos ilegais. Mas o problema vai muito além do consumo humano. No mercado pet, a falsificação de medicamentos vem se tornando uma ameaça cruel. Falsificar remédios destinados a animais não é apenas um crime contra o bolso do tutor, é uma agressão contra seres que dependem da integridade e do cuidado humano para viver.

No Brasil, esse tipo de crime tem crescido à sombra da popularização do e-commerce não especializados. Medicamentos antiparasitários de marcas amplamente reconhecidas como Bravecto, Seresto, Simparic e NexGard, têm sido alvos frequentes. Ao adquirir uma versão falsificada, o tutor corre o risco de oferecer um produto ineficaz, com dose imprópria ou substâncias tóxicas. Sem controle de qualidade, essas medicações não somente deixam de tratar o que prometem, mas também como colocam em risco a vida dos animais ao criar uma perigosa ilusão de segurança.

Um exemplo emblemático foi a operação Reação Adversa, deflagrada em dezembro de 2024 em Minas Gerais. A ação teve o objetivo de desarticular uma organização criminosa voltada ao comércio eletrônico de produtos, para humanos, destinados a fins terapêuticos e medicinais falsificados. Segundo o Ministério Público do Estadode Minas Gerais, os integrantes da organização controlavam diversos perfis de vendas em plataformas digitais, sendo responsáveis pela prática de mais de 10 milvendas ou exposições à venda de medicamentos falsificados nos últimos três anos, remetidos para mais de 20 estados brasileiros.

Leia mais: 

O caso, assim como outros, revela como marketplaces vêm sendo explorados por criminosos para escoar produtos com aparência legítima e preços tentadores. Muitos tutores ainda acreditam que medicamentos veterinários podem ser comprados em qualquer canal, sem a orientação de um profissional. Essa falsa sensação de conveniência, somada à crescente informalidade, cria um ambiente fértil para golpes.

Hoje o mercado brasileiro de produtos veterinários é fiscalizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), conforme o Decreto-Lei nº 467/1969 e o Decreto nº 5.053/2004, que exigem controle técnico e sanitário destes itens. A Resolução CFMV nº 1.562/2023 reforça essa exigência, e o Projeto de Lei 2154/2024, em tramitação, propõe tornar obrigatória a presença de um médico-veterinário em todos os estabelecimentos que comercializem medicamentos para animais. São avanços necessários, mas que ainda esbarram na amplitude do problema.

É importante destacar que outro fator que alimenta o mercado ilegal de medicamentos é o roubo de cargas. De acordo com estudos encomendados pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (Abradimex), o setor de distribuição de medicamentos especializados registrou perdas de R$ 283 milhões em 2024 em decorrência do roubo de cargas. Os produtos farmacêuticos são altamente visados por seu valor agregado e facilidade de revenda, assim, muitos desses lotes desviados reaparecem em canais informais ou em marketplaces, nos quais as plataformas se eximem da responsabilidade direta pelos produtos comercializados, transferindo aos anunciantes/vendedores o dever legal de assegurar a procedência e conformidade dos itens ofertados, de acordo com a regulamentação brasileira. O tutor de pets, muitas vezes seduzido por preços baixos e descrições convincentes, acaba, portanto, comprando itens sem procedência.

Como driblar o risco

A prevenção começa em casa. Desconfiar de preços muito baixos, observar a qualidade da embalagem, verificar o número de lote e exigir nota fiscal são atitudes essenciais. Em caso de suspeita, o ideal é interromper o uso, guardar a embalagem, consultar um veterinário e notificar o fabricante ou o órgão fiscalizador.

Mas o enfrentamento do problema vai além da punição aos falsificadores. É preciso investir em educação do consumidor, fiscalização mais efetiva e responsabilização das plataformas de venda. Comprar em canais especializados, com respaldo técnico e procedência assegurada, deve ser entendido não como luxo, mas como um ato de cuidado e amor.

A falsificação de medicamentos no universo pet é urgente, grave e invisível para grande parte dos tutores. Estamos falando de vidas vulneráveis que dependem da ética, da regulação e da vigilância humana para sobreviver. Se queremos ver um mercado pet mais seguro no Brasil, precisamos de ação conjunta: do poder público, das empresas e dos consumidores. Vigilância e consciência são as melhores vacinas contra esse tipo de crime.

*Daniela Bochi é médica veterinária e gerente de marketing da Cobasi, uma das maiores redes de varejo pet do Brasil.

Relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -spot_img

Últimas notícias