Alterações no desenvolvimento neurológico e no comportamento existem em cães e gatos, mas especialistas alertam que os diagnósticos não são os mesmos utilizados na medicina humana
Um cachorro que evita contato social, repete os mesmos movimentos por horas ou demonstra extrema sensibilidade a sons. Um gato que passa boa parte do dia lambendo compulsivamente o próprio corpo ou reage de forma intensa a estímulos aparentemente comuns. Diante de comportamentos como esses, muitos tutores fazem uma pergunta que tem se tornado cada vez mais frequente: afinal, existem pets neurodivergentes?
A resposta não é tão simples quanto parece. Do ponto de vista científico, o termo “neurodivergência” foi criado para descrever diferentes formas de funcionamento do cérebro humano e não faz parte da classificação médica utilizada na medicina veterinária. Isso significa que cães e gatos não recebem diagnósticos como autismo ou TDAH da mesma maneira que as pessoas.
Isso, porém, não significa que alterações neurológicas e do neurodesenvolvimento não existam nos animais.
A neurologia e a medicina comportamental veterinária reconhecem diversas condições capazes de modificar a forma como cães e gatos percebem o ambiente, aprendem, respondem aos estímulos e interagem com pessoas e outros animais. Entre elas estão alterações congênitas do sistema nervoso, transtornos compulsivos, distúrbios de processamento sensorial, quadros de hiperatividade, doenças neurológicas e síndromes comportamentais que exigem avaliação especializada.
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Foi justamente a busca por respostas que levou o analista de sistemas Rodrigo Almeida, tutor do border collie Max, hoje com três anos, a procurar ajuda especializada.
“Desde filhote ele apresentava comportamentos diferentes. Corria atrás da própria cauda durante muito tempo, tinha dificuldade para interromper algumas atividades e reagia de forma exagerada a determinados sons. Achávamos que era apenas um cachorro muito agitado, mas o veterinário explicou que havia uma alteração comportamental que precisava ser investigada”, conta.
Após exames clínicos para descartar problemas físicos e uma avaliação comportamental detalhada, Max iniciou um programa que incluiu enriquecimento ambiental, treinamento baseado em reforço positivo e adaptações na rotina da família. Poucos meses depois, os episódios compulsivos diminuíram significativamente.
Segundo especialistas, um dos maiores desafios está justamente em diferenciar personalidade de doença. Assim como cada pessoa possui características próprias, cães e gatos também apresentam temperamentos distintos. Alguns são naturalmente mais sociáveis, outros mais reservados, enquanto determinados animais demonstram maior sensibilidade a sons, mudanças de ambiente ou contato físico.
A investigação começa quando esses comportamentos passam a comprometer o bem-estar do animal ou interferem em sua capacidade de realizar atividades normais do dia a dia.
Entre os sinais que merecem atenção estão movimentos repetitivos persistentes, vocalizações sem motivo aparente, dificuldade extrema de adaptação, respostas exageradas a estímulos sonoros, compulsões, alterações importantes na interação social, episódios recorrentes de ansiedade e comportamentos que possam causar lesões ao próprio animal.
Os especialistas ressaltam que não existe um exame capaz de confirmar essas alterações. O diagnóstico depende de uma avaliação ampla, que envolve histórico clínico, exame neurológico, investigação de doenças metabólicas, ortopédicas e hormonais, além da análise comportamental realizada pelo médico-veterinário.
O tratamento também varia conforme a causa identificada. Em muitos casos, a combinação de manejo ambiental, exercícios físicos, enriquecimento cognitivo, treinamento comportamental e, quando necessário, medicamentos específicos proporciona melhora significativa na qualidade de vida do animal.
Nos últimos anos, o avanço da neurologia veterinária e da medicina do comportamento tem ampliado o conhecimento sobre essas condições. Novos estudos buscam compreender como alterações genéticas, hormonais e do desenvolvimento cerebral influenciam o comportamento de cães e gatos, permitindo abordagens cada vez mais individualizadas.
Mais do que encontrar equivalentes para diagnósticos humanos, a ciência veterinária procura entender cada animal de forma única. E essa talvez seja a principal mensagem para os tutores: diante de um comportamento incomum, a melhor resposta não está em rotular o pet, mas em buscar uma avaliação especializada capaz de identificar a causa e oferecer o tratamento mais adequado.
À medida que a medicina veterinária evolui, cresce também a compreensão de que saúde mental e saúde neurológica fazem parte do bem-estar animal. Reconhecer alterações precocemente pode representar a diferença entre uma vida limitada por sofrimento silencioso e uma rotina muito mais equilibrada para cães, gatos e suas famílias.


