*Por Bianca Ribeiro
Todo tutor de cães compartilha um desejo: ter mais tempo ao lado desses companheiros. Essa vontade vai além da emoção — é também um campo de estudo que avança na medicina veterinária. Hoje, sabemos que a longevidade canina não é um mistério sem resposta, e que por meio dos sinais biológicos podemos intervir precocemente para melhorar a qualidade de vida deles.
Esses sinais, chamados de biomarcadores, são como “assinaturas” que revelam o que acontece no organismo do cão, indicando pistas sobre o envelhecimento e o risco de desenvolver doenças crônicas. Dessa forma, é possível saber, com antecedência, se o cão tem propensão a problemas renais ou cardíacos, por exemplo, e intervir antes que a enfermidade se manifeste. Se tivesse que resumir em uma frase, diria que os biomarcadores são uma chance de mudar a história de vida do seu bichinho.
E essa não é uma realidade distante. Já existem tecnologias e exames sendo desenvolvidos que permitirão aos veterinários avaliar a expectativa de vida do cão e, com base nisso, recomendar estratégias personalizadas para retardar o envelhecimento biológico.
Os reguladores da longevidade canina
Dos biomarcadores mais estudados na longevidade canina, o mTOR (mammalian target of rapamycin) se destaca. Ele é uma via metabólica que controla o crescimento celular. Em outras palavras, o mTOR funciona como um “interruptor” no corpo, controlando o crescimento das células, o uso de energia e até o tempo que o organismo pode viver com saúde.
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Estudos mostram que a ativação excessiva do mTOR está associada ao envelhecimento acelerado e ao surgimento de doenças relacionadas à idade. Em contrapartida, quando regulado de forma equilibrada pode prolongar a vida e manter a saúde do cão por mais tempo, retardando o declínio funcional e reduzindo a incidência de doenças neurodegenerativas, cardiovasculares e inflamatórias. Algumas intervenções podem ser aplicadas para regular esse biomarcador com segurança, por meio de ajustes nutricionais e/ou farmacológicos.
Outro biomarcador interessante de abordarmos é a inflamação crônica de baixa intensidade, também conhecida como “inflammaging”. Com o tempo, o organismo tende a produzir mais citocinas pró-inflamatórias, como a interleucina-6 (IL-6), que estão ligadas a menor expectativa de vida em cães. Monitorar esses marcadores é essencial para identificar e reduzir a inflamação, retardando o envelhecimento.
A genética também desempenha um papel importante na longevidade canina, já que algumas raças tendem a viver mais do que outras. Entender essas diferenças ajuda a criar estratégias personalizadas para cada cão, oferecendo um panorama mais completo sobre sua saúde.
Fora isso, exercícios regulares e enriquecimento ambiental também têm impacto direto na qualidade de vida desses animais. Cães ativos e mentalmente estimulados envelhecem de forma mais saudável e têm menos chance de desenvolver doenças crônicas.
No entanto, muitas vezes, os tutores podem subestimar as necessidades deles – achamos que dormiram bem o suficiente ou que se exercitaram de forma adequada, quando não foi o caso. É aí que a tecnologia entra como uma grande aliada, fornecendo dados precisos sobre o estilo de vida do animal, como horas de sono, níveis de atividade e até padrões de comportamento. Com essas informações, fica ainda mais fácil fazer ajustes na rotina para garantir o bem-estar.
Transformando esses biomarcadores e a integração desses dados com exames de rotina em ferramentas clínicas, permitimos que os profissionais sigam com uma abordagem muito mais sofisticada e preditiva. E isso não revoluciona apenas o setor veterinário, mas também traz esperança para as mães e pais de pets: a possibilidade de prolongar o tempo precioso ao lado de seus melhores amigos.