Adestrador Glauco Lima e Julinho Casares discutem modelo que transforma animais de abrigos em cães de serviço certificados — e defendem regulamentação pública para escalar o impacto
O Brasil tem mais de 67 milhões de cães e um dos maiores mercados pet do mundo, com faturamento projetado em R$ 78 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo, estima-se que entre 170 mil e 200 mil animais vivam em abrigos aguardando adoção, enquanto outros milhões sobrevivem nas ruas. É nesse contraste que começa uma das discussões mais urgentes do setor: e se parte desses cães pudesse salvar vidas?
Foi essa pergunta que esteve no centro do encontro entre Julinho Casares e o adestrador Glauco Lima. De um lado, a realidade dos abrigos lotados e do abandono crescente. Do outro, modelos internacionais consolidados, uma metodologia brasileira já testada e um objetivo claro: transformar em política pública o que hoje ainda depende de iniciativa individual.
O que um cão de serviço realmente faz
Nos Estados Unidos e na Europa, cães de serviço são reconhecidos como tecnologia assistiva de alto impacto. Um cão de alerta médico para diabetes tipo 1 pode custar entre US$ 45 mil e US$ 60 mil nesses mercados — reflexo de um treinamento rigoroso que inclui seleção criteriosa, socialização intensiva e protocolos técnicos avançados. No Brasil, esse universo ainda é pouco conhecido, mesmo entre profissionais de saúde.
“Hoje ainda há uma grande lacuna de entendimento sobre o quanto um cão pode auxiliar uma pessoa com diabetes tipo 1, transtorno de estresse pós-traumático ou mobilidade reduzida. Isso é independência funcional.”
| Glauco Lima, adestrador e especialista em cães de serviço
O que um cão de utilidade pública pode fazer?
• Detectar alterações glicêmicas em pessoas com diabetes tipo 1 antes que aconteçam
• Sinalizar crises de epilepsia com antecedência
• Auxiliar em transições entre cadeira de rodas, cama e sofá
• Atuar na regulação emocional de crianças no espectro autista
Um método brasileiro com potencial nacional
Glauco Lima apresentou no encontro o método Conexão, uma metodologia própria que desenvolve obediência, equilíbrio emocional e comunicação entre cão e tutor. Mais do que um conjunto de técnicas, trata-se de uma estratégia estruturada com potencial de expansão em escala nacional.
Parte dessa expansão passa por um modelo já testado na prática: o programa Segunda Chance, inspirado em iniciativas americanas em que detentos em regime semiaberto participam do treinamento inicial dos cães. Os animais recebem educação básica dentro das unidades prisionais e seguem para treinamento avançado, saindo de abrigos ou ruas para se tornarem cães de serviço certificados.
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“Imagina a família poder dormir tranquila, sabendo que existe um alerta natural dentro da sua casa”, esclarece Glauco Lima.
O tamanho do impacto possível
Os números ajudam a dimensionar a oportunidade. O Brasil tem cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes, o equivalente a 1 em cada 10 brasileiros. Considerando os familiares diretamente afetados, o alcance potencial chega a 60 milhões de pessoas. Somam-se a isso os milhares de brasileiros com autismo, epilepsia e mobilidade reduzida que poderiam se beneficiar de um cão de serviço treinado.
A iniciativa também contempla raças com perfil para salvamento aquático. Com técnicas trazidas de congressos internacionais — incluindo um evento sobre cães de alerta para epilepsia em Milão e visitas a organizações especializadas na Suíça —, Glauco Lima introduziu no Brasil protocolos nos quais cães auxiliam guarda-vidas em resgates no mar.
O que falta para escalar
Para que a proposta avance além dos casos individuais e alcance quem mais precisa, o caminho passa por políticas públicas, como já existe em outros países. Glauco Lima e Julinho Casares identificaram quatro frentes essenciais:
• Criação de políticas públicas estruturadas para cães de utilidade pública
• Protocolos oficiais de certificação reconhecidos pelo poder público
• Programas de treinamento e reabilitação com financiamento estável
• Projetos de lei que garantam qualidade, segurança e acesso equitativo
“A ideia é estruturar um modelo sustentável: formar profissionais, gerar certificação e direcionamento ao mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que treinamos cães para doação”, conclui o adestrador.
O encontro entre Julinho Casares e Glauco Lima pode ser o começo de algo maior: transformar em política pública o que hoje depende de iniciativa individual. Para tutores, famílias e os próprios animais, essa é uma causa que vai muito além do mercado pet — e que já tem método, experiência e urgência do seu lado.



