Até 40% dos felinos enfrentam episódios desse tipo ao longo da vida; especialistas explicam quando se preocupar e como evitar complicações graves
Quem convive com gatos conhece bem a cena: o felino passa horas se lambendo meticulosamente, mantendo a pelagem impecável. Mas esse hábito natural de higiene pode trazer um problema incômodo, e até perigoso: as bolas de pelo, conhecidas cientificamente como tricobezoar.
Durante a limpeza, os gatos utilizam a própria língua, que é composta por papilas gustativas pontudas que funcionam como um pente natural. Enquanto se lambem, os pelos soltos são puxados por essas papilas e muitas vezes acabam sendo ingeridos. Quando não são digeridos, formam as famosas bolas de pelo.
Estudos indicam que aproximadamente 30% a 40% dos gatos experimentam episódios de bolas de pelo ao longo de suas vidas, com incidência significativamente maior em animais de pelagem longa.
Quando é normal e quando preocupar
As bolas de pelo são compostas por pelos, saliva, suco gástrico e, às vezes, restos de comida. Sua eliminação é esperada, seja por meio de vômito ou pelas fezes. Segundo médicos veterinários, a frequência considerada normal é de 1 a 2 vômitos por mês, com aumento nas épocas de maior troca de pelos, como outono e primavera.
“O vômito é a maneira natural do organismo felino tentar eliminar os pelos ingeridos. Porém, quando os episódios se tornam mais frequentes ou surgem outros sintomas, é preciso atenção”, alertam os especialistas.
Quem está mais em risco?
Algumas raças, como Persas e Maine Coons, são mais propensas a desenvolver bolas de pelo devido à pelagem densa e longa, que solta mais fios e aumenta a quantidade ingerida durante a limpeza.
A troca de pelagem nas estações transitórias também é um período crítico, já que a perda maior de pelos faz com que os animais acabem ingerindo mais durante a rotina de higiene.
Mas não é só a pelagem que influencia. O estresse é outro fator importante, pois pode levar à lambedura excessiva, aumentando consequentemente a ingestão de pelos. Problemas dermatológicos, como infecções cutâneas, presença de pulgas ou alergias, também causam coceira e desconforto, fazendo com que o gato lamba e mastigue áreas afetadas mais do que o normal.
Outro fator que contribui para a formação das bolas de pelo é a diminuição da motilidade gastrointestinal, que pode ocorrer por diversos motivos, incluindo doenças gastrointestinais crônicas, alergias alimentares, dor crônica e estresse.
Sinais de alerta
Embora comuns, as bolas de pelo podem causar sérios problemas de saúde. Em casos graves, podem provocar obstrução intestinal, causando dor abdominal, letargia e perda de apetite, situação que exige intervenção veterinária urgente.
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Por isso fique atento aos seguintes sintomas: perda de apetite, apatia e fraqueza, vômitos frequentes (mais de 2 vezes ao mês), diarreia ou fezes ressecadas, prisão de ventre, vômitos líquidos e regurgitações frequentes, comportamento mais quieto que o habitual e perda de peso
“Um animal que não elimina bola de pelo nem por vômito nem pelas fezes vai apresentar sinais preocupantes. Animais com mais de dois dias de sintomas assim devem ser levados imediatamente ao veterinário. Em alguns casos, pode ser necessária até intervenção cirúrgica para remoção”, explicam os especialistas.
Por mais inofensivas que pareçam, as bolas de pelo afetam a saúde e o bem-estar dos pets. Alguns sintomas sutis impactam o comportamento do felino de forma silenciosa. Por isso, qualquer alteração comportamental deve acender um alerta para busca de ajuda profissional.
Como prevenir
Felizmente, existem várias medidas simples que os tutores podem adotar:
1. Escovação regular: Esta é a maneira mais eficaz de reduzir a quantidade de pelo ingerido. Gatos de pelagem longa devem ser escovados diariamente, pois o processo remove pelos soltos antes que o animal tenha chance de ingeri-los. Além disso, é importante verificar regularmente se há nós e embaraços na pelagem, que podem ser dolorosos e levar o gato a lamber-se mais.
2. Alimentação adequada: No mercado existem rações específicas que ajudam a reduzir a formação de bolas de pelo. Esses alimentos contêm fibras especiais que promovem a saúde da pelagem e facilitam a passagem dos pelos ingeridos pelo trato digestivo.
3. Extrato de malte: Produto de origem natural que melhora a digestão e o trânsito gastrointestinal dos felinos. O suplemento gera um efeito estimulador do sistema digestivo, ajudando a eliminar as bolas de pelo de forma natural através das fezes, sem gerar desconforto. Quando fornecido com frequência, ajuda a prevenir problemas como obstrução gástrica ou intestinal.
4. Hidratação adequada: Manter o gato bem hidratado ajuda a prevenir a formação de bolas de pelo e facilita sua passagem pelo sistema digestivo. A água é essencial para a saúde geral do felino e para o funcionamento adequado do trato digestivo.
5. Ambiente enriquecido: Um ambiente estimulante pode reduzir o estresse e a ansiedade, diminuindo a necessidade do gato de lamber-se excessivamente. Brinquedos, arranhadores e interação com o tutor são maneiras eficazes de manter o animal mentalmente e fisicamente ativo.
6. Cuidados dermatológicos: Garantir que a pelagem esteja saudável, livre de infecções e parasitas, é fundamental para evitar lambeduras excessivas. Produtos antipulgas e acompanhamento veterinário regular são essenciais para a saúde da pele e do pelo.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico pode ser feito através da observação dos sintomas e confirmado por radiografias abdominais ou ultrassonografia, que revelam a presença de massas obstrutivas no trato gastrointestinal.
O tratamento varia de conservador a invasivo, dependendo da gravidade. Em situações comuns, usam-se pastas de malte ou alimentos ricos em fibras para ajudar na passagem do pelo. Já em casos graves, pode ser necessária intervenção cirúrgica para remover a obstrução.
Ao adotar medidas simples de cuidado, os tutores podem ajudar a manter a saúde e o bem-estar de seus gatos, prevenindo problemas associados às bolas de pelo. É importante lembrar que, em caso de suspeita de obstrução ou outros problemas graves, é indispensável procurar orientação do médico veterinário imediatamente.
A prevenção é sempre a melhor abordagem para garantir que os felinos se mantenham saudáveis e felizes.



