Estudo brasileiro encontrou sobrepeso ou obesidade em 7 de cada 10 cadelas com tumores mamários; alimentação, castração e palpação em casa estão entre os cuidados
No mês do Outubro Rosa, dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, um dado chama atenção também na medicina veterinária: sete em cada dez cadelas com tumores mamários estavam acima do peso em um estudo brasileiro. Nas cadelas, esse é um dos tipos de tumor mais frequentes.
A pesquisa, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), foi publicada no Austral Journal of Veterinary Sciences. Os pesquisadores analisaram 600 cadelas diagnosticadas com tumores mamários, sendo 54 com tumores benignos e 546 malignos, e classificaram a condição corporal de cada uma entre muito magra, peso ideal, sobrepeso e obesidade. Do total, 70,2% estavam acima do peso. O excesso de peso também apareceu associado a tumores de grau histológico II.
Os resultados não indicam que a obesidade cause o câncer. Os próprios pesquisadores observaram que nem todas as análises mostraram relação entre o peso e a malignidade, o estágio ou a presença de metástase. O dado, porém, reforça uma questão cada vez mais discutida na oncologia veterinária: qual é o papel da alimentação e da manutenção do peso adequado no risco e na evolução dos tumores em cães?
Qual é a relação entre gordura e câncer?
Segundo Gabriela Corte Real, médica-veterinária da foodtech de alimentação natural A Quinta Pet, a obesidade provoca alterações metabólicas e um estado inflamatório crônico no organismo. “Não existe evidência de que uma alimentação específica seja capaz de prevenir o câncer, mas controlar a quantidade de calorias, oferecer uma dieta nutricionalmente equilibrada e evitar o ganho excessivo de peso são medidas que ajudam a manter uma condição corporal saudável, que é justamente um dos fatores que a ciência tem colocado sob investigação quando o assunto é câncer”, explica.
A relação entre obesidade e câncer também é discutida em uma revisão científica conduzida por pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), publicada em 2025. O trabalho mostra que o tecido adiposo não funciona apenas como reserva de energia. Em excesso, ele está relacionado a alterações metabólicas e hormonais e à produção de mediadores inflamatórios, criando um estado de inflamação crônica de baixo grau. Essa é uma das possíveis conexões investigadas entre a obesidade e o desenvolvimento e a progressão de tumores em animais.
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O que o responsável pode fazer no dia a dia?
Para Gabriela, não basta oferecer ingredientes considerados saudáveis. A dieta precisa fornecer proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais nas proporções adequadas para a espécie, a idade, o porte, o nível de atividade e as condições de saúde do animal. A quantidade também pesa: mesmo uma alimentação equilibrada pode levar ao ganho de peso quando é oferecida acima das necessidades energéticas do pet, que mudam ao longo da vida conforme fatores como idade, rotina de exercícios, castração e presença de doenças.
Petiscos, recompensas, restos de comida oferecidos entre as refeições e alimentos usados para administrar medicamentos também entram nessa conta. As diretrizes de nutrição e controle de peso da American Animal Hospital Association (AAHA) orientam que esses extras, somados, não ultrapassem 10% das calorias diárias do animal, para evitar tanto o excesso de energia quanto o desequilíbrio da dieta principal. Mais importante do que eleger um único modelo de alimentação como o correto para todos os pets é verificar, com acompanhamento veterinário, se aquele animal recebe os nutrientes e a quantidade de energia adequados para manter o peso adequado.
A castração também faz diferença?
O peso não é o único fator observado pela ciência. Um levantamento conduzido pela UFU e publicado na revista Pesquisa Veterinária Brasileira avaliou 386 cadelas atendidas entre 2015 e 2017 em ações de Outubro Rosa Pets nas cidades de Uberlândia e Patos de Minas (MG). Os tumores mamários foram encontrados em 23,6% dos animais, e os pesquisadores identificaram a idade, o sobrepeso e a ausência de castração como fatores de risco para a doença. A decisão sobre a castração, e sobre o momento mais indicado para realizá-la, deve ser tomada com orientação veterinária.
E quando o câncer já foi diagnosticado?
Nessa fase, a alimentação passa a fazer parte também do suporte ao tratamento. As Diretrizes de Oncologia 2026 da AAHA recomendam que a dieta seja individualizada de acordo com o diagnóstico de câncer, outras condições de saúde existentes e as necessidades nutricionais de cada paciente.
Segundo Gabriela, nesses períodos a alimentação pode exigir características diferentes das adotadas na rotina de um animal saudável, com maior aporte de proteínas e aminoácidos para preservar o peso e a massa muscular. Além da composição nutricional, aspectos como textura e palatabilidade precisam ser considerados, principalmente quando há redução de apetite ou dificuldade para se alimentar. Os avanços da nutrição veterinária, observa a especialista, vêm impulsionando o desenvolvimento de dietas voltadas a necessidades clínicas específicas, como convalescença, internação e tratamento oncológico.
A indicação, porém, deve sempre considerar o quadro clínico e ser feita com orientação veterinária. “A alimentação não substitui cirurgia, quimioterapia ou qualquer outro tratamento indicado. Mas pode ocupar um espaço importante tanto antes, ajudando o animal a manter uma condição corporal adequada, quanto durante o tratamento, contribuindo para preservar seu estado nutricional e sua qualidade de vida”, completa Gabriela.
Como identificar alterações logo no início?
Ao lado da alimentação adequada, existe um cuidado simples que pode ser incorporado à rotina: conhecer o corpo do próprio animal. Os tumores mamários podem começar como pequenos nódulos e, muitas vezes, são indolores. Por isso, esperar que o pet demonstre dor, perda de peso, falta de apetite ou mudança de comportamento pode atrasar a procura pelo médico-veterinário.
Durante momentos de carinho, banho ou escovação, o responsável pode apalpar delicadamente as duas cadeias mamárias, que se estendem da região do tórax até perto da virilha. Com as pontas dos dedos, sem apertar ou espremer, é possível perceber alterações que antes não estavam presentes: pequenos caroços ou nódulos, áreas endurecidas, aumento de volume ou diferença entre as mamas, vermelhidão, alterações no mamilo, secreções, feridas ou ulcerações.
A palpação não substitui o exame veterinário: ao notar qualquer alteração, a orientação é procurar o médico-veterinário. Um pequeno nódulo percebido enquanto o animal ainda brinca, come e se comporta normalmente pode ser justamente a oportunidade de investigar o problema antes que ele avance.


