Acolher também é honrar: minha jornada na validação do luto pet no Brasil

*Por Kênia Camargo

 

Kênia CamargoQuando falamos sobre luto pet hoje, vemos uma sociedade que começa a compreender algo que muitas famílias já sabem há muito tempo: o amor entre humanos e animais é real, profundo e transformador. Mas nem sempre foi assim. Há mais de 15 anos, quando iniciei minha trajetória, falar sobre luto pet ainda era um tabu. A dor pela perda de um animal de estimação era frequentemente minimizada e poucas pessoas encontravam espaço para expressar seus sentimentos sem julgamentos.

Uma história que começa na própria dor

Minha história nesse segmento começou a partir de uma vivência familiar. Quando perdemos o nosso cão Max, um pastor de 13 anos que fez parte da nossa família por grande parte da vida, enfrentamos uma realidade que marcou profundamente nossa história. Naquele momento, não existiam alternativas adequadas para oferecer uma despedida digna a um animal de estimação.

Da dor daquela despedida nasceu um sonho. Meu pai idealizou o Cemitério e Crematório dos Animais A Reviver, em Betim, Minas Gerais, criado para oferecer às famílias aquilo que nós mesmos sentimos falta quando perdemos o Max: acolhimento, respeito e dignidade na despedida. Foi dentro dessa empresa familiar que nasceu meu propósito.

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Ao longo dos anos, tive a honra de atuar como sócia e diretora do A Reviver, acompanhando de perto milhares de famílias em um dos momentos mais delicados de suas vidas. Ali compreendi algo que transformaria minha carreira: o desafio não estava apenas em oferecer um serviço funerário para animais. O verdadeiro desafio era acolher pessoas. Era reconhecer que o luto pet existe, que ele é legítimo e que merece ser respeitado.

O peso da incompreensão

Durante anos acompanhei tutores de animais que chegavam devastados pela perda de seus companheiros de vida e, muitas vezes, ainda precisavam enfrentar a incompreensão social. Frases como “era só um cachorro”, “era só um gato” ou “você pode ter outro” ainda fazem parte da realidade de muitas famílias enlutadas.

Foi observando essa necessidade que comecei a aprofundar meus estudos e minha atuação profissional, tornando-me tanatóloga especialista em luto pet, Doula da Travessia Multiespécie e consultora técnica do Comitê Pet da Sincepet/Acembra. Minha missão passou a ser construir pontes entre o amor vivido em vida e o acolhimento necessário na despedida.

Quando a especialista atravessa a própria dor

Em 30 de dezembro de 2024, vivi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida: a despedida da minha filha pet, Sophie Charlotte Camargo. Depois de mais de uma década acolhendo famílias, conduzindo treinamentos e defendendo a validação do luto pet, fui chamada a atravessar a minha própria dor.

A Sophie não foi apenas uma companheira de vida. Ela foi uma das maiores professoras da minha trajetória. Seu diagnóstico, seu processo de adoecimento, sua despedida e tudo o que veio depois reforçaram dentro de mim aquilo que venho defendendo há tantos anos: o luto pet não é um exagero emocional. É uma resposta natural ao amor.

A partida da Sophie fortaleceu ainda mais meu compromisso com o legado que escolhi construir. Hoje, quando entro em uma sala para ministrar uma palestra, conduzir uma consultoria ou capacitar uma equipe, não falo apenas como especialista. Falo também como alguém que conhece a dor da despedida, e que entende que por trás de cada atendimento existe uma história de amor que merece ser respeitada.

Uma transformação social em curso

Ao longo dessa caminhada, acompanhei uma importante transformação social. Os animais passaram a ocupar um lugar cada vez mais legítimo dentro das famílias brasileiras. Hoje falamos sobre famílias multiespécie, sobre vínculos afetivos profundos, sobre relações que ultrapassam conceitos tradicionais e que exigem um novo olhar da sociedade. Esse movimento fortalece também a validação do luto pet: quanto mais compreendemos a importância desses vínculos, mais entendemos a necessidade de acolher quem sofre com essa perda.

Foi a partir dessa visão que desenvolvi o conceito que chamo de Ecossistema do Ciclo do Cuidado. Acredito que o acolhimento humanizado só acontece de forma plena quando três pilares caminham juntos: a medicina veterinária, o setor do luto e o tutor do animal e sua família. Quando um desses pilares não está conectado aos demais, o cuidado se interrompe, as pontes ficam incompletas e a família enlutada muitas vezes enfrenta sozinha uma das experiências mais difíceis da sua vida.

O cuidado não termina na despedida

Acredito que o cuidado não termina no diagnóstico. Não termina no último atendimento veterinário. Não termina na despedida. Ele continua através do acolhimento, da memória e do respeito à história construída entre humanos e animais. Por isso dedico meu trabalho à construção dessas conexões, por meio de consultorias, treinamentos, palestras e do Instituto Kênia Camargo.

O Instituto nasce sustentado por três pilares fundamentais: Cuidar, Acolher e Honrar. Mais do que uma iniciativa profissional, representa um compromisso com o futuro. Um espaço dedicado à formação de profissionais, ao desenvolvimento do setor funerário pet e à construção de uma sociedade que reconheça a importância do luto pet com mais empatia, respeito e humanidade.

Porque falar sobre luto pet não é falar apenas sobre morte. É falar sobre amor, sobre vínculo, sobre legado. E toda história de amor merece ser honrada.

*Kênia Lisboa Camargo é tanatóloga especialista em luto pet, Doula da Travessia Multiespécie e consultora técnica do Comitê Pet Sincepet/Acembra. Fundadora do Instituto Kênia Camargo e ex-diretora do Cemitério e Crematório dos Animais A Reviver (Betim, MG).

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