Veterinário transforma casos reais em livro sobre vínculo, negligência e os bastidores da medicina animal

Em “Não era passeio, era consulta”, Victor Soares narra a história de Loba, uma husky que quase foi eutanasiada, e expõe temas raramente discutidos fora do consultório, como fadiga por compaixão e luto animal

 

Uma husky siberiana de nove meses, chamada Loba, chega ao hospital em estado crítico após uma sequência de convulsões. O responsável pelo animal demonstra pressa em encerrar o caso. A cena abre o livro “Não era passeio, era consulta”, do médico veterinário Victor Soares, publicado pela Editora Rua do Sabão, e já antecipa o tom da obra: entre emergências reais e reflexões sobre responsabilidade afetiva, o autor questiona o que significa, de fato, cuidar de um animal.

Com mais de dez anos de atuação clínica, Soares transforma casos marcantes da carreira em uma narrativa que mistura memória autobiográfica, bastidores hospitalares e análise social. A trajetória de Loba, que quase foi eutanasiada após ser abandonada pelos antigos responsáveis, serve de fio condutor para discutir temas que raramente chegam ao grande público.

O que acontece quando o veterinário adoece de empatia

Um dos temas centrais da obra é a chamada fadiga por compaixão, condição que afeta profissionais expostos de forma contínua ao sofrimento e às perdas. Soares descreve como o esgotamento emocional da profissão se entrelaça à trajetória de Loba e à rotina de outros pacientes que marcaram sua carreira.

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A obra também aborda o peso das decisões clínicas, a pressão sobre os profissionais de medicina veterinária e os impactos do luto animal, tema ainda cercado de silêncio na sociedade brasileira.

Humanização, limites e a natureza dos animais

Ao longo dos capítulos, Victor Soares questiona os riscos da humanização excessiva dos pets e a importância de compreender a natureza animal para além das projeções afetivas. Obesidade, comportamento e os desafios contemporâneos do cuidado com cães e gatos são tratados não como curiosidades, mas como consequências diretas da relação entre humanos e animais no período pós-pandemia.

“Esta obra inaugura um novo olhar sobre a literatura veterinária no Brasil”, afirma Juliana Cunha, crítica literária responsável pela orelha do livro. Segundo ela, o autor equilibra drama clínico real com reflexões perspicazes sobre comportamento animal, antropomorfização e transformações na relação entre responsáveis pelos animais e seus pets.

Segunda chance e conexão humano-animal

Estruturado em torno de tropes literárias como família encontrada, segunda chance e a conexão entre humano e animal, o livro acompanha a recuperação de Loba após o abandono e entrelaça à narrativa ensaios, relatos e histórias de outros pacientes. O resultado é uma obra que, segundo o autor, amplia o debate sobre a criação de cães e gatos de forma inédita na literatura brasileira.

Título – Não era passeio, era consulta
Subtítulo – Um veterinário no centro da relação humano-animal
Autor – Victor Soares
Editora – Rua do Sabão
ISBN – 978-65-5245-044-9
Gênero – Autoficção
Páginas – 150

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