O luto que precisa ser sentido: quando perdemos nossos filhos de quatro patas

*Por Daniela Petroli

 

Daniela PetroliHá uma dor que a sociedade ainda insiste em minimizar, um luto que muitos acham exagerado, um vazio que poucos compreendem. Perdi minha Kira há poucos dias, e com ela se foi um pedaço de mim — aquele pedaço preenchido pelo amor mais puro que existe.

A História de uma Guerreira

Kira sempre foi guerreira. Foi abandonada, resgatada, adotada e devolvida. Voltou para minha casa e para minha vida porque estava escrito que lá era o lugar dela. E foi feliz… ah, como foi feliz comigo e com os irmãos de quatro patas! Sua alegria era contagiante, daquelas que chegam antes do corpo, que iluminam o ambiente só de existir.

Ela andava o tempo todo atrás de mim, estava presente em cada passo. Ocupava aquele espaço que ninguém mais é capaz de ocupar. Cachorros não substituem, não se comparam, não se explicam. Eles simplesmente preenchem a casa, o silêncio, os dias difíceis e até as dores que a gente não consegue nomear.

Quando a luta termina

Descobrimos a doença e lutamos pela vida dela com todas as forças. Cada decisão, cada tratamento, cada esperança depositada em mais um dia ao seu lado. A gente entra nessa batalha acreditando que o amor, a dedicação e a tentativa incansável de salvar vão ser suficientes. Acreditando que fazer tudo é sinônimo de conseguir. Mas não é.

Kira partiu alguns dias depois da cirurgia, mas partiu serena e acolhida, sem dor, amada – muito amada.

E agora fica um vazio imenso. Vazio físico, no cotidiano, silencioso. A ausência dela ecoa em cada canto e vai ser assim por algum tempo. Mas sei que agora ela vai iluminar o céu e brilhar lá em cima como brilhou aqui embaixo.

O momento mais temido

O momento trágico da perda traz um sentimento de devastação interior, quando a gente percebe que aquilo que parecia tão distante finalmente chegou. A gente sabe que eles vão embora, que a vidinha deles é mais curta, mas sempre pensamos que isso vai acontecer “um dia…”— jamais hoje! Jamais com os nossos…

E então vêm os sentimentos em turbilhão: a dor, o vazio, a saudade, a revolta, o medo de que aconteça de novo quando se tem outros pets. E até uma culpa irracional… “Por que não vi antes?”, “Por que permiti que ela sofresse com todo o processo de tratamento se mesmo assim não resistiu?”, “Será que ela morreu sem entender que eu estava tentando salvá-la?”. A impotência dói tanto quanto a perda.

A dor que muita gente não entende

O quanto as pessoas minimizam a dor da perda de um pet! Frases como “era só um cachorro”, “você pode ter outro”, “já passou tempo demais” — essas palavras acuam e fazem com que tutores sofram em silêncio, sentindo-se sozinhos no momento em que mais precisam de acolhimento.

Mas a verdade precisa ser dita: a perda de um pet causa um luto profundo e real, comparável à perda de um ente humano querido. É um processo doloroso que merece respeito e validação social. A intensidade do amor justifica a intensidade da dor.

Hoje, eu ainda não sei exatamente quando ou como vou ressignificar essa perda. Não existe prazo para isso. Mas eu sei que, em algum momento, isso vai acontecer. Não porque a dor desaparece, mas porque o amor encontra outra forma de existir.

A Kira foi festa, alegria, superação e amor. E talvez ressignificar seja justamente isso: aprender a carregar esse amor sem a presença física, mas com gratidão pela história vivida. Sem apagar a dor, mas também sem apagar tudo o que foi luz.

Leia mais: 

Como Enfrentar o Luto

Se você está passando por isso agora, saiba que não está sozinho. E que há caminhos para atravessar essa dor:

Permita-se sentir: O luto não é linear. Aceite a tristeza, a raiva, a culpa. Não se isole — busque quem entenda sua dor sem julgamentos.

Crie rituais de despedida: Álbuns de fotos, plantar uma árvore em memória, enterrar as cinzas em um lugar especial, fazer pequenas cerimônias. Esses rituais ajudam a processar a perda e honrar a memória.

Respeite seu tempo: O processo de luto é único para cada pessoa e pode durar de três meses a um ano ou mais. Não há prazo certo para “superar” — há apenas o tempo necessário para aprender a viver com a saudade.

Busque apoio: Converse com amigos que compreendam, participe de grupos de apoio para tutores enlutados. Há pessoas que entendem que essa dor é legítima.

Observe seus outros pets: Se você tem outros animais em casa, saiba que eles também sentem. Cães podem demonstrar luto através de falta de apetite, agressividade, ansiedade, mudanças de comportamento e desorientação. Ofereça a eles tempo, carinho e rotina.

Uma mensagem para quem chora

O luto por um animal de estimação é, muitas vezes, a primeira vivência real com a morte. E é crucial viver esse processo para poder curar a saudade. Não apresse sua dor. Não deixe que minimizem o que você sente.

Kira me ensinou sobre amor incondicional, sobre segundas chances, sobre alegria nos pequenos momentos. E agora me ensina sobre a coragem de sentir a dor da perda — porque só quem amou profundamente pode sofrer profundamente.

Se você perdeu seu companheiro de quatro patas, permita-se chorar. Permita-se lembrar. Permita-se sentir tudo isso que parece grande demais para caber dentro do peito. Porque esse amor merece ser honrado, e essa dor merece ser sentida.

Eles partem, mas jamais nos deixam. Ficam na marca da patinha impressa no coração, nas memórias que nos fazem sorrir entre lágrimas, no espaço único que ninguém mais poderá ocupar.

*Daniela Petroli atua como pedagoga e psicopedagoga e nutre uma enorme paixão pelo bem-estar animal. Como protetora independente, empenha-se em defender e cuidar dos animais, promovendo informações, adoção responsável e respeito a todas as formas de vida. Além de sua formação acadêmica, é entusiasta do universo animal, comprometida em compartilhar conhecimentos e experiências para fomentar uma convivência harmoniosa entre humanos e seus companheiros de quatro patas.

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