*Por Francis Flosi
São Paulo acaba de dar um passo significativo no reconhecimento do vínculo afetivo entre pessoas e seus animais de estimação. A nova lei sancionada pelo governador Tarcísio de Freitas, que autoriza o sepultamento de cães e gatos em jazigos e sepulturas familiares, ultrapassa o campo jurídico e toca diretamente em uma transformação cultural já em curso na sociedade brasileira.
Mais do que regulamentar um procedimento, a legislação reconhece algo que, na prática, já faz parte da vida de milhões de famílias: os pets ocupam um lugar de afeto profundo, pertencimento e memória. São companheiros de rotina, de silêncio e de cuidado — e, quando partem, deixam um vazio real, que também merece respeito.
A lei permite que os animais sejam sepultados junto aos seus responsáveis, desde que sejam rigorosamente observadas as normas sanitárias e ambientais. Ao fazer isso, o Estado valida não apenas uma escolha, mas um sentimento: o luto pela perda de um animal é legítimo. Ele existe, dói e precisa ser acolhido.
O que vivenciamos diariamente na prática clínica
Como médico-veterinário e diretor de uma faculdade de Medicina Veterinária, afirmo com convicção que essa realidade não é nova para quem está na linha de frente do atendimento clínico. Somos, na maioria das vezes, os profissionais que acompanham o responsável pelo animal nos últimos momentos de vida do pet. E é nesse instante que o vínculo se revela em sua forma mais sensível.
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O que essa pessoa vivencia não é exagero, fragilidade ou apego excessivo. É luto. Um luto real, legítimo e profundo.
Durante muito tempo, a formação técnica foi suficiente para responder às demandas da profissão. Hoje, ela continua sendo essencial — mas já não basta sozinha. A Medicina Veterinária contemporânea exige escuta atenta, comunicação empática e capacidade de acolhimento emocional.
Dizer ao responsável pelo animal “o que você está sentindo é luto” tem um efeito poderoso. Valida uma dor que, por anos, foi silenciada ou minimizada. O amor não termina com a morte. Ele se transforma em memória — e toda memória, antes de aquecer, dói.
Novas responsabilidades para a Medicina Veterinária
Com a nova legislação, amplia-se também a responsabilidade do médico-veterinário no período pós-óbito. Cabe a nós orientar corretamente sobre os procedimentos legais, sanitários e ambientais, mas também agir com ética, sensibilidade e humanidade diante da dor do outro.
Esse cenário fortalece um debate urgente: a humanização do atendimento veterinário e a atenção à saúde mental — não apenas dos responsáveis pelos animais, mas também dos próprios profissionais, que lidam diariamente com perdas, despedidas e sofrimento emocional.
Atenta a essa transformação social e profissional, a Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas oferece o curso “Luto pela Perda dos Pets”, voltado a médicos-veterinários, estudantes e profissionais da área. A formação aborda o reconhecimento do luto pet, cuidados paliativos, comunicação no fim da vida, ética profissional e estratégias de apoio emocional, preparando o profissional para atuar de forma consciente e responsável nos momentos de despedida.
Acredito que iniciativas como essa são indispensáveis diante das mudanças legais e da evolução da relação entre pessoas e animais. A Medicina Veterinária moderna exige profissionais preparados para cuidar da vida — mas também para lidar com a morte de forma digna, respeitosa e humana. Isso também é cuidado.
A nova lei, aliada à formação especializada, reforça o papel do médico-veterinário como agente de saúde integral: alguém que cuida do animal, orienta com responsabilidade e oferece suporte emocional aos responsáveis, contribuindo para uma relação mais ética, sensível e consciente entre sociedade e animais.



