*Por Brunna Gomes Re
Muitos tutores relatam a angústia de ver seus cães e gatos sofrerem e, inclusive, mudarem os hábitos alimentares e comportamentais sem poder verbalizar o que estão sentindo ou em qual intensidade. Foi motivada por essa dificuldade e pela necessidade de compreender e acompanhar a dor nos pets que realizei uma pesquisa que reuniu dados de 602 pacientes ao longo de dez anos e buscou formas mais estruturadas de avaliar a dor e a qualidade de vida dos animais.
A resposta começa por uma limitação do próprio ofício: cães e gatos não verbalizam sintomas e sensações. Por isso, diferentes fatores precisam ser considerados para chegarmos o mais próximo possível da real condição do paciente, do nível de sofrimento e das possibilidades de tratamento. O estudo, então, combinou avaliação clínica, percepção do tutor, escala de dor e questionários de qualidade de vida. Essa composição foi resultado dos anos de experiência dos envolvidos no projeto, que teve como orientadora a professora dra. Denise Fantoni, referência em dor e anestesiologia veterinária; e participação da veterinária Terezinha Martins, e da análise dos resultados que, quando observados em conjunto, oferecem um cenário mais completo e acessível.
As percepções do tutor e do veterinário são de extrema importância, mas, isoladamente, podem não abranger todos os fatores que refletem o bem-estar e a evolução do animal. Medir os resultados de forma estruturada e padronizada significa criar uma base mais sólida para avaliar a eficácia do tratamento, sem depender apenas da percepção de que o paciente “parece melhor”.
A análise dos pacientes também revelou padrões relacionados à espécie e a algumas raças. Os felinos, por exemplo, demonstram a dor de maneira mais silenciosa quando comparados aos cães. Além disso, algumas raças apresentam mais predisposição a doenças concomitantes, aquelas que ocorrem ao mesmo tempo que a condição principal, o que também interfere no quadro e no acompanhamento. Há ainda um ganho prático no acompanhamento constante: quando o tratamento apresenta evolução favorável, alguns parâmetros ajudam a identificar essa resposta e indicam a continuidade daquele caminho. Quando ocorre o contrário, esses mesmos indicadores podem mostrar a necessidade de alteração do protocolo.
Leia mais:
-
Cuidado com os pets no verão proporciona bem-estar. Veja dicas
-
Qualittas recebe quarta turma de Medicina Veterinária em meio à expansão do mercado pet
-
Mulher dá à luz em casa com apoio especial de seus três cães golden retrievers
Durante a pesquisa, o que mais me surpreendeu foi justamente a variabilidade das respostas. Ao trocar uma medicação ou apenas ajustar a dose, alguns pacientes melhoraram de forma muito mais rápida quando comparados ao tratamento anterior. Isso confirma que cada paciente possui uma resposta individual e variável, que deve ser considerada ao longo de todo o tratamento. Acredito que a principal contribuição deste trabalho é justamente compreender que pacientes podem apresentar respostas diferentes aos mesmos protocolos e reconhecer a importância de uma avaliação mais concreta e padronizada para cada caso.
A consequência mais delicada dessa lógica aparece nas decisões difíceis, muito comuns em pacientes crônicos, oncológicos ou em cuidados paliativos. Quando observamos que o animal de fato responde ao tratamento, ainda que mais lentamente, e analisamos todos os fatores envolvidos naquele caso, essa resposta positiva pode ser o diferencial necessário para decidir se devemos insistir ou não naquela abordagem.
As ferramentas de mensuração foram desenvolvidas justamente para simplificar essa aplicação e ampliar sua utilização no controle da dor dos pacientes indicados. Qualquer clínica ou hospital veterinário pode implantar esse tipo de acompanhamento com treinamento adequado, mensuração apurada e análise individual.
Ainda existem caminhos pouco explorados, como avaliar a frequência e o timbre de latidos e miados e sua correspondência com o que o animal tenta comunicar, além de novas classes medicamentosas e suplementos que merecem ser mais estudados. Mas, independentemente das ferramentas que ainda possam surgir, a experiência acumulada ao longo desses anos reforça um aprendizado fundamental: pacientes podem responder de maneiras diferentes aos mesmos protocolos. Por isso, acompanhar a dor não deve significar apenas observar se o animal parece melhor, mas construir uma avaliação mais concreta e padronizada, capaz de considerar a resposta individual de cada paciente ao longo do tratamento.


