Cachorro comunitário é baleado e morre no Paraná dias após caso Orelha: “Até quando?”

Abacate era cuidado coletivamente pela vizinhança em Toledo (PR) e foi encontrado com ferimento de tiro no abdômen

 

Apenas dias após a morte do Cão Orelha — espancado por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis (SC) — outro cachorro comunitário foi vítima de violência no Sul do país. Abacate, um cão que vivia nas ruas de Toledo (PR) e era cuidado coletivamente pelos moradores, morreu nesta terça-feira (27/1) após ser baleado.

O QUE ACONTECEU

Abacate foi encontrado ferido com uma marca de tiro no abdômen. O projétil perfurou o intestino e comprometeu os rins do animal. Ele foi levado às pressas para cirurgia em um hospital veterinário particular, mas não resistiu aos ferimentos e morreu ainda na tarde de ontem.

O animal tinha uma rotina na comunidade: passava as noites abrigado na casa de uma moradora do bairro Tocantins e, pela manhã, ficava solto nas ruas, onde era alimentado e cuidado de forma coletiva pela vizinhança.

O órgão de Proteção e Defesa Animal de Toledo denunciou o caso em publicação nas redes sociais. Um boletim de ocorrência foi registrado, mas até o momento nenhum suspeito foi preso. Moradores indignados já organizaram uma manifestação pedindo justiça por Abacate. O ato está marcado para sábado (1º/2), às 10h, no Parque do Povo de Toledo.

CONTEXTO PREOCUPANTE

Os números revelam um cenário alarmante de violência contra animais no Brasil. Santa Catarina já registrou mais de 5.500 ocorrências de maus-tratos a animais em 2025, superando todo o ano anterior. Cães representam cerca de 60% das vítimas, sendo espancamento e envenenamento as formas mais comuns de agressão.

UM SINTOMA, NÃO UM FATO ISOLADO

A psicóloga Juliana Sato, analisa o significado psicológico por trás desses casos:

“Crueldade contra animais raramente acontece no vazio. Do ponto de vista psicológico, ela funciona como um sinal de risco psicossocial. Maus-tratos frequentemente coexistem com outros contextos de violência familiar e social. Não é um evento solto — é um sintoma de que algo no entorno já está fragilizado”, explica a psicóloga.

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Segundo Juliana, esses comportamentos funcionam como alertas que pedem rede de proteção e responsabilidade coletiva, não apenas indignação momentânea. “Quando a gente reduz tudo a um fato policial, perde a chance de compreender o que aquele episódio revela sobre o contexto em que ele surgiu.”

Para a especialista, violência contra animais também é uma pauta de saúde mental pública: “No fim, não se trata apenas de um cão. Trata-se do que essa violência revela sobre como estamos cuidando, ou falhando em cuidar, das nossas relações.”

LEGISLAÇÃO E PUNIÇÃO:

A advogada especializada na causa animal, Dra. Antilia Reis, explica como funciona a lei quando os agressores são menores de idade:

“Quando um adolescente (entre 12 e 17 anos) pratica uma conduta que seria crime se cometida por um adulto, aplica-se o regime do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O adolescente não pode ser preso como um adulto. Sua responsabilização ocorre por meio de medidas socioeducativas, como: obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade ou, em casos mais graves, internação em unidade de atendimento socioeducativo.”

Responsabilização dos pais

Os pais não respondem criminalmente apenas por serem responsáveis legais, mas podem ser penalizados se houver comprovação de participação, instigação, consentimento ou omissão consciente. Segundo o art. 13, §2º do Código Penal, os pais têm dever jurídico de vigilância e proteção, e falhas graves podem gerar consequências que vão desde advertências até acompanhamento psicossocial e medidas de proteção.

REFLEXÃO NECESSÁRIA

Casos como os de Orelha e Abacate expõem uma realidade brutal: animais comunitários, que vivem nas ruas por falta de opção e dependem da bondade de desconhecidos, estão vulneráveis à violência. É preciso que a sociedade enxergue esses animais com empatia e fique atenta às atitudes — especialmente de crianças e adolescentes.

Quantos animais ainda precisam sofrer maus-tratos, dentro e fora das casas, até que a violência contra seres indefesos seja tratada com a seriedade que merece? Esses pets merecem o mínimo: carinho, alimentação, água e um abrigo seguro.

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