Tutora de São Paulo diz que sua gata muda de comportamento quando percebe tristeza ou tensão em casa; pesquisas mostram que felinos reconhecem vozes, interpretam sinais emocionais e podem desenvolver fortes vínculos com humanos
Bastam alguns minutos de silêncio para Amora perceber que alguma coisa mudou.
A gata sem raça definida, de seis anos, costuma passar boa parte do dia entre o sofá e a janela do apartamento onde vive com a tutora, a auxiliar administrativa Renata Alves, na zona leste de São Paulo. Independente e dona de seus próprios horários, como Renata costuma brincar, Amora nem sempre está procurando colo.
Mas há uma situação em que o comportamento muda.
“Quando estou muito preocupada ou triste, parece que ela percebe. Ela chega mais perto, fica no sofá comigo e, algumas vezes, deita encostada na minha perna. Sempre falo que ela sabe quando não estou bem”, conta.
Renata também percebe algo parecido quando existe tensão dentro de casa. Uma conversa em tom mais elevado ou uma mudança brusca na rotina parece deixar Amora mais atenta. As orelhas se movimentam, ela observa as pessoas e, dependendo da situação, prefere se afastar.
A explicação que Renata ouviu durante anos é bastante conhecida: gatos seriam animais extremamente sensíveis, capazes de “sentir a energia” das pessoas e dos ambientes.
Mas existe alguma ciência por trás disso?
A resposta é mais interessante do que simplesmente dizer sim ou não.
Eles não leem pensamentos, mas leem sinais
Não há evidência científica de que gatos consigam perceber “energias” humanas no sentido sobrenatural atribuído muitas vezes à expressão. Isso não significa, entretanto, que a famosa sensibilidade felina seja apenas imaginação dos tutores.
A ciência vem descobrindo que os gatos são observadores sociais muito mais sofisticados do que sua fama de animais indiferentes faz parecer.
Um estudo publicado na revista Animal Cognition demonstrou, por exemplo, que gatos conseguem diferenciar a voz de seus tutores da voz de pessoas desconhecidas. Mesmo sem enxergar quem estava falando, os animais apresentaram respostas de orientação, principalmente movimentando cabeça e orelhas, diante da voz familiar.
Ou seja, Amora não precisa olhar para Renata para saber que é ela quem está falando.
E o tom dessa voz também pode fornecer informações.
Leia mais:
-
Moradora aperta todos os botões do elevador e salva um cachorro perdido
-
Quando a saudade dói: Amora e a síndrome do abandono
-
Cachorrinhas que sofrem com a ‘Síndrome do Cachorro Preto’ buscam por um lar
Felinos prestam atenção às nossas emoções
Outra pesquisa investigou justamente se gatos utilizam informações emocionais fornecidas pelos humanos diante de uma situação desconhecida.
Os animais foram colocados diante de um objeto potencialmente assustador enquanto seus tutores transmitiam mensagens positivas ou negativas por meio da expressão facial e da voz.
O resultado chamou atenção: 79% dos gatos olharam alternadamente para o objeto e para o tutor, comportamento conhecido como referência social. Além disso, em algum grau, modificaram seu comportamento de acordo com a mensagem emocional apresentada pela pessoa.
É como se, diante de algo desconhecido, o animal procurasse uma pista: “Como a pessoa em quem confio está reagindo a isso?”
Pesquisas posteriores avançaram nessa direção. Em experimento publicado em 2020, cientistas apresentaram aos gatos combinações de imagens e sons associados a emoções humanas e felinas. Os resultados indicaram que eles conseguem integrar informações visuais e auditivas relacionadas a determinados estados emocionais.
Isso não significa que um gato compreenda a tristeza humana da mesma maneira que outro ser humano.
Mas significa que ele dispõe de mecanismos para perceber que alguma coisa mudou.
Então Amora sabe quando Renata está triste?
Aqui é preciso separar ciência de romantização.
Quando Renata chega em casa preocupada, talvez fale menos. Pode andar de maneira diferente, alterar o tom de voz, permanecer mais tempo parada no sofá ou modificar diversos pequenos comportamentos que fazem parte de uma rotina que Amora conhece há anos.
Para nós, essas alterações podem parecer insignificantes.
Para um animal que observa diariamente aquela pessoa, elas representam informação.
A ciência já demonstrou que gatos apresentam alguma sensibilidade às expressões emocionais humanas, particularmente às de pessoas familiares. Portanto, quando um tutor afirma que seu gato “percebe quando estou diferente”, pode realmente existir uma base comportamental para essa impressão.
O cuidado está em não transformar essa capacidade em algo que a pesquisa ainda não demonstrou.
Perceber alterações emocionais não significa necessariamente compreender a causa da tristeza, demonstrar “empatia” nos mesmos termos humanos ou decidir conscientemente consolar alguém.
Existe também vínculo afetivo
Talvez uma das descobertas mais interessantes sobre a sensibilidade dos gatos esteja justamente na relação que estabelecem conosco.
Pesquisadores da Oregon State University utilizaram um teste empregado em estudos sobre vínculos de apego e observaram gatos e filhotes durante uma breve separação de seus cuidadores e posteriormente no reencontro.
Entre os filhotes que puderam ser classificados, 64,3% apresentaram padrão de apego seguro. Em gatos adultos, o resultado foi semelhante: 65,8% foram classificados dessa maneira.
No apego seguro, a presença do cuidador funciona como uma espécie de base de segurança: após o reencontro, o animal consegue equilibrar contato com aquela pessoa e exploração do ambiente.
A pesquisa contribuiu para derrubar mais um estereótipo sobre os felinos: o de que eles apenas toleram os humanos porque recebem comida e abrigo.
Existe relação social. Existe reconhecimento. E, em muitos casos, existe vínculo.
A fama de indiferente talvez seja injusta
Parte do problema pode estar na maneira como nós mesmos esperamos que um animal demonstre afeto.
Cães frequentemente apresentam sinais sociais muito evidentes aos olhos humanos. Aproximam-se, abanam o rabo, pulam, procuram interação e tornam algumas de suas intenções bastante claras.
O repertório dos gatos pode ser mais sutil.
Uma movimentação das orelhas. Um olhar. A aproximação espontânea. Permanecer no mesmo ambiente. Esfregar-se na pessoa. Deitar ao lado dela. Alterar a distância diante de uma situação estranha.
Quando esperamos que o gato se comporte como um cachorro, podemos simplesmente deixar de perceber parte daquilo que ele está comunicando.
Ao mesmo tempo, também existe o risco contrário: interpretar qualquer comportamento felino a partir de sentimentos humanos. Pesquisa envolvendo mais de 1,8 mil tutores mostrou que pessoas que antropomorfizavam mais seus gatos também apresentavam maior tendência a atribuir emoções até mesmo a fotografias neutras dos animais.
É justamente aí que ciência e senso comum precisam se encontrar.
Sensíveis, sim. Sobrenaturais, não
Talvez Renata continue dizendo que Amora “sabe” quando ela está triste. E, na linguagem afetiva de quem convive diariamente com um animal, a frase faz sentido.
A ciência apenas acrescenta algumas camadas a essa história.
Amora conhece sons familiares. Observa movimentos. Pode utilizar expressões e vocalizações humanas como informação. Aprende padrões da casa e da pessoa com quem vive. E pode estabelecer com essa pessoa um verdadeiro vínculo de apego.
Não é preciso dizer que gatos enxergam nossa alma, absorvem energias ou possuem algum sexto sentido para reconhecer que existe algo extraordinariamente interessante acontecendo.
Eles estão nos observando.
Talvez muito mais do que imaginamos.


