*Por Francis Flosi, médico-veterinário e diretor geral da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas
A popularização dos medicamentos utilizados para controle do diabetes e emagrecimento trouxe para o debate uma questão que merece atenção também dentro das famílias que convivem com animais de estimação: afinal, medicamentos como o Mounjaro, à base de tirzepatida, podem ser utilizados para fazer cães e gatos emagrecerem?
A resposta é simples: não se deve administrar Mounjaro em cães, gatos ou outros animais de estimação por conta própria. A tirzepatida é um medicamento desenvolvido e aprovado para uso humano, e não existe indicação veterinária estabelecida que permita tratar a obesidade de cães e gatos simplesmente reproduzindo o tratamento utilizado em pessoas.
O Mounjaro atua sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1, interferindo em mecanismos relacionados à glicemia, ao apetite e ao funcionamento do sistema digestivo. Na medicina humana, a molécula possui indicações específicas, doses determinadas e acompanhamento médico. Isso, entretanto, não significa que seus efeitos possam ser automaticamente transferidos para outras espécies.
Cães e gatos possuem características fisiológicas, metabólicas e nutricionais próprias. Um medicamento que apresenta determinado mecanismo de ação e segurança em seres humanos pode ter comportamento diferente em um animal. Por isso, a utilização de medicamentos humanos em pets sem avaliação veterinária pode transformar uma tentativa de emagrecimento em um problema de saúde.
O perigo de buscar uma solução rápida
A obesidade dos animais de companhia é uma preocupação crescente na medicina veterinária. Muitas vezes, o ganho de peso acontece de forma gradual e passa despercebido pelo responsável pelo animal. O pet ganha alguns gramas ou quilos ao longo dos meses, enquanto a família entende que ele está apenas “mais gordinho”.
O problema é que o excesso de peso não é apenas uma questão estética.
A obesidade pode estar associada a alterações metabólicas e ao aumento do risco de problemas como doenças osteoarticulares, diabetes, alterações cardiovasculares e outras condições que comprometem a mobilidade, o bem-estar e a qualidade de vida do animal. Diretrizes de manejo nutricional veterinário recomendam que peso e condição corporal sejam avaliados de maneira individualizada, considerando fatores como espécie, idade, raça, condição clínica, alimentação e nível de atividade.
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Por isso, quando percebemos que um cão ou gato está acima do peso, a primeira atitude não deve ser procurar uma “caneta para emagrecer”, mas procurar um médico-veterinário.
Emagrecimento saudável não acontece de uma hora para outra
Um dos principais erros quando falamos em obesidade animal é buscar resultados rápidos.
A perda de peso de um pet precisa ser planejada e acompanhada. O objetivo não é simplesmente fazer o animal comer menos, mas promover uma redução de gordura preservando massa muscular, garantindo nutrientes e evitando consequências metabólicas.
As recomendações veterinárias indicam que o programa de emagrecimento deve considerar a necessidade energética individual do animal, seu peso ideal, alimentação, condição corporal, rotina e possíveis doenças associadas. O acompanhamento periódico permite ajustar o plano conforme a resposta do paciente.
Em outras palavras: o emagrecimento do pet precisa ser tratado como uma questão de saúde, e não como uma dieta improvisada.
O papel do responsável pelo animal
A participação da família é fundamental.
É muito comum que o responsável pelo animal ofereça petiscos, biscoitos, restos de alimentos ou pequenas porções durante o dia sem contabilizar essas calorias. O problema é que aquilo que parece pouco para uma pessoa pode representar uma quantidade significativa para um cão ou gato.
Por isso, algumas mudanças simples podem fazer uma grande diferença:
1. Alimentação adequada
A dieta deve ser compatível com a espécie, idade, porte, condição corporal e necessidades individuais do animal. Quando existe obesidade, o médico-veterinário poderá indicar uma estratégia nutricional específica e, quando necessário, uma dieta terapêutica.
2. Controle das porções
Não basta escolher uma boa ração. A quantidade oferecida também precisa ser adequada. A orientação deve considerar o peso ideal e as necessidades energéticas do paciente.
3. Atenção aos petiscos
Petiscos, biscoitos e alimentos oferecidos fora da dieta principal também fornecem calorias. Diretrizes de nutrição veterinária recomendam que esses itens sejam contabilizados dentro da ingestão diária do animal.
4. Mais movimento
Caminhadas, brincadeiras, atividades de enriquecimento ambiental e exercícios adequados à condição física do animal podem fazer parte do programa de controle de peso. Para cães, atividades como brincar de buscar objetos, correr e interagir em ambientes apropriados podem estimular o movimento. Para gatos, brincadeiras que incentivem perseguição e exploração também são importantes.
Mas é fundamental lembrar: um animal obeso não deve simplesmente ser submetido a exercícios intensos. O tipo e a intensidade da atividade precisam considerar sua idade, condição física, articulações e possíveis doenças.
5. Acompanhamento veterinário
O acompanhamento profissional permite avaliar não apenas o número apresentado pela balança, mas também a condição corporal e a massa muscular. O objetivo é estabelecer uma redução de peso segura e sustentável.
Não é apenas uma questão de peso
Existe uma diferença importante entre simplesmente pesar um animal e avaliar sua condição corporal.
Dois cães podem apresentar o mesmo peso na balança e ter condições físicas completamente diferentes. Por isso, a avaliação veterinária considera fatores como escore de condição corporal e condição muscular, além do histórico alimentar e clínico.
Essa avaliação é especialmente importante porque algumas doenças podem contribuir para alterações de peso. Da mesma forma, um animal que apresenta ganho de peso não deve ser colocado automaticamente em uma dieta restritiva sem que sua condição seja investigada.
O tratamento começa pelo diagnóstico.
Medicamento humano não é atalho para a obesidade animal
A tirzepatida é um medicamento que possui ação farmacológica específica e efeitos adversos conhecidos em seres humanos. A bula do Mounjaro descreve, entre outros pontos, efeitos gastrointestinais e advertências relacionadas ao medicamento, além de indicar seu uso dentro de situações clínicas específicas da medicina humana.
A existência de um medicamento eficaz em seres humanos não significa que ele possa ser considerado automaticamente seguro ou eficaz para cães e gatos.
Além disso, a própria Food and Drug Administration, a agência reguladora dos Estados Unidos responsável por fiscalizar e regulamentar, entre outros produtos, alerta para problemas relacionados ao uso inadequado de versões não aprovadas de medicamentos à base de GLP-1, incluindo tirzepatida, destacando a importância de prescrição e acompanhamento profissional.
Quando falamos de animais, a responsabilidade é ainda maior: não devemos transformar o pet em uma extensão do tratamento humano.
Cada espécie apresenta particularidades e cada paciente precisa ser avaliado individualmente.
O melhor tratamento começa com prevenção
Prevenir o ganho excessivo de peso é muito mais simples do que tratar uma obesidade já instalada.
Isso significa estabelecer uma rotina alimentar adequada desde cedo, controlar a quantidade de alimento oferecida, não transformar petiscos em demonstração permanente de afeto e estimular atividades físicas compatíveis com o animal.
Precisamos também mudar uma percepção cultural: amar um animal não significa oferecer comida o tempo todo.
Muitas vezes, o responsável pelo animal oferece um biscoito porque quer agradar, recompensa um comportamento com alimento ou compartilha aquilo que está comendo. Esse hábito, repetido diariamente, pode contribuir para o excesso calórico.
Carinho também pode ser demonstrado com brincadeiras, passeios, atenção, enriquecimento ambiental e tempo de qualidade.
O compromisso é com a qualidade de vida
Cães e gatos fazem parte das nossas famílias. Por isso, quando apresentam excesso de peso, precisam receber o mesmo cuidado que teríamos diante de qualquer outra alteração de saúde.
O objetivo não deve ser simplesmente fazer o animal “ficar magro”. O objetivo é proporcionar mais saúde, mobilidade, disposição e qualidade de vida.
A medicina veterinária possui ferramentas para avaliar a condição corporal, identificar fatores associados ao ganho de peso e estabelecer estratégias individualizadas de alimentação e atividade física.
Não existe fórmula mágica.
Existe acompanhamento, disciplina, mudança de hábitos e, principalmente, conhecimento técnico.
A orientação é clara
Mounjaro (tirzepatida) não deve ser administrado em cães, gatos ou outros animais de estimação sem indicação e acompanhamento de um médico-veterinário. Não há indicação veterinária estabelecida para simplesmente reproduzir em pets o tratamento de emagrecimento utilizado em humanos.
Se o animal está acima do peso, a recomendação é procurar atendimento veterinário para uma avaliação completa. A partir daí, o profissional poderá definir uma estratégia segura, que pode envolver adequação alimentar, controle de porções, atividade física, acompanhamento da condição corporal e investigação de possíveis doenças associadas.
Emagrecer um pet não é apenas reduzir a quantidade de comida. É cuidar da saúde, respeitar a fisiologia de cada espécie e garantir que o processo aconteça de maneira segura.
Porque nossos animais de estimação não precisam de soluções rápidas. Eles precisam de cuidados corretos, responsáveis e baseados em conhecimento veterinário.


