Especialistas explicam como o estresse acústico provoca pânico, fugas e até acidentes em cães, gatos, animais comunitários e aves urbanas durante partidas de futebol
O Brasil entra em campo nesta quarta-feira (24), às 19h, contra a Escócia, na sequência da Copa do Mundo de 2026. O grito de gol que vai ecoar pelas janelas, as buzinas nas avenidas e os fogos de artifício que devem estourar entre os prédios traduzem a euforia da torcida. Para os animais, porém, esse mesmo som representa uma ameaça invisível e aterrorizante. Em dias de grandes decisões de campeonatos esportivos, o impacto do barulho nas cidades vai muito além do animal que treme no colo do responsável: ele afeta cães e gatos domiciliados, animais de rua, colônias de felinos, abrigos e até as aves que compartilham o espaço urbano.
Para a professora Marcela Aldrovani Rodrigues, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca (Unifran), o impacto do estresse acústico provocado pelo futebol precisa ser compreendido como uma questão de convivência urbana. Quando um animal se assusta com fogos, buzinas ou estampidos, ele reage a um estímulo intenso, inesperado e sem possibilidade de controle. No ambiente urbano, essa reação de pânico pode se transformar rapidamente em fugas desesperadas, quedas, atropelamentos ou desaparecimentos. A preocupação não pode ficar restrita apenas aos animais que vivem protegidos dentro das casas, afirma a pesquisadora.
O sofrimento silencioso dos gatos
Enquanto os cães costumam latir, tremer ou buscar contato físico, nos gatos o sofrimento pode ser silencioso e, por isso, frequentemente subestimado. De acordo com a médica veterinária Vitória Fontes, especialista em medicina felina da Unifran, os gatos assustados tendem a desaparecer dentro da própria casa, buscando refúgio em armários, frestas, basculantes ou telhados.
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O gato assustado nem sempre faz barulho ou procura contato físico. Ele pode ficar escondido por horas, parar de comer, urinar fora da caixa de areia ou ficar temporariamente mais reativo ao toque. O silêncio do felino, nesses casos, não significa que ele está tranquilo, esclarece a médica veterinária.
A orientação para quem tem gatos é preparar a casa antes do jogo: fechar portas, janelas e basculantes para evitar fugas em altura, manter o animal em um cômodo seguro e nunca forçar sua saída do esconderijo escolhido, o que aumentaria ainda mais o estresse.
O risco para os animais de rua e comunitários
Para quem vive na rua, o barulho é um desafio sem rota de fuga. Cães comunitários e colônias de gatos assustados correm sem direção, o que gera risco imediato de acidentes de trânsito. Após o anúncio de gols e finais de partidas, os motoristas devem redobrar a atenção nas ruas, pois animais em pânico podem atravessar as vias de forma repentina, alerta Marcela.
Para proteger os animais de rua, a comunidade pode adotar medidas coletivas simples, como evitar fogos com estampido e não soltar rojões nas proximidades de praças, colônias, abrigos ou clínicas veterinárias. Oferecer abrigo temporário e seguro em garagens e áreas cobertas também ajuda a salvar vidas. Já tentar capturar um animal de rua assustado à força exige cuidado, pois o pânico pode provocar comportamento de defesa, como mordidas e arranhões.
Até as aves sofrem com a vibração dos fogos
Embora cães e gatos sejam os primeiros lembrados nas campanhas de conscientização, as aves urbanas sofrem impactos severos com as explosões sonoras. Estudos com radares meteorológicos já registraram aumentos expressivos e anômalos de aves em voo logo após queimas de fogos, indicando deslocamentos em massa em horários nos quais as espécies deveriam estar em repouso.
As aves urbanas compartilham o ambiente conosco e, para elas, os fogos não são apenas som. Há luz, vibração, fumaça e odor no ar, gerando uma mudança brusca e assustadora no ambiente. Isso provoca decolagem em massa, desorientação e abandono de ninhos e áreas de descanso, o que gera um gasto energético prejudicial à sobrevivência delas, explica Marcela Aldrovani.
Como torcer sem estampido
As especialistas da Unifran destacam que é plenamente possível torcer e vibrar pelo esporte de forma segura e empática. Para quem vai comemorar, a recomendação é trocar os rojões com barulho por fogos de efeito visual sem estampido, bandeiras, cornetas manuais e camisas.
Como proteger seu pet nos dias de jogo
• Antecipe os passeios diários para horários bem distantes das partidas
• Mantenha os animais dentro de casa, com portas e janelas fechadas
• Ligue a TV ou música em volume moderado para abafar os ruídos externos
• Verifique se a identificação do animal na coleira está atualizada
• Em casos de pânico intenso ou automutilação, consulte um médico veterinário com antecedência para avaliar a necessidade de suporte clínico
Com pequenos ajustes na rotina e atenção redobrada nas ruas, é possível torcer pelo Brasil com toda a intensidade nesta quarta-feira sem transformar a partida em um momento de pânico para os animais. A responsabilidade é coletiva: dentro de casa, com os pets, e nas ruas, com quem não tem onde se abrigar.


