Aves, répteis e pequenos mamíferos ganham espaço nos lares brasileiros, mas falta de informação adequada ainda compromete o bem-estar desses animais
O Brasil está vivendo uma transformação silenciosa no universo pet. Cada vez mais tutores abrem as portas de casa para aves, répteis, peixes e pequenos mamíferos — os chamados pets não convencionais. A mudança reflete o estilo de vida urbano, com espaços menores e rotinas mais dinâmicas, além da influência das redes sociais, que transformaram esses animais em verdadeiras estrelas digitais.
Mas há um problema sério por trás dessa tendência: muitos tutores ainda não sabem como cuidar adequadamente desses pets. E o resultado? Animais adoecendo por erros que poderiam ser evitados com informação de qualidade desde o primeiro dia.
O que os veterinários estão vendo nos consultórios
No Hospital Veterinário Taquaral (HVT), em Campinas, a realidade dos consultórios especializados mostra esse cenário com clareza. “Temos observado um aumento consistente nos atendimentos a pets não convencionais, não apenas em casos de urgência, mas também em consultas preventivas, exames e orientações aos tutores”, conta a médica-veterinária Raíssa Natali, especializada nesse tipo de animal.
O lado positivo? Há uma conscientização crescente. O lado preocupante? Grande parte dos problemas de saúde ainda acontece por manejo inadequado.
Os erros que se repetem
Apesar das diferenças entre um papagaio, um hamster e uma tartaruga, os equívocos cometidos pelos tutores costumam ser os mesmos:
Alimentação incompatível com as necessidades da espécie — dar sementes demais para aves, oferecer alface para répteis herbívoros ou não variar a dieta de pequenos mamíferos são erros clássicos.
Ambiente mal dimensionado — gaiolas pequenas, terrários sem controle de temperatura ou aquários inadequados comprometem o bem-estar e a saúde do pet.
Falta de controle de temperatura e umidade — répteis são especialmente sensíveis a esses fatores, que impactam diretamente sua digestão, imunidade e metabolismo.
Ausência de acompanhamento veterinário preventivo — a falsa ideia de que esses animais “não precisam de veterinário” é um dos maiores riscos à saúde deles.
Automedicação e orientações genéricas da internet — o que funciona para um animal pode ser tóxico para outro. Confiar em dicas não especializadas pode agravar quadros clínicos.
O instinto que engana os tutores
Há ainda outro desafio: o comportamento natural desses pets. “A maioria dos animais não convencionais é espécie-presa e, por instinto, mascara sinais clínicos até o limite fisiológico”, explica a médica-veterinária do HVT, Morgana Prado.
Na prática, isso significa que um passarinho que está se alimentando menos ou um coelho que fica mais quieto pode estar escondendo um problema sério. “As alterações iniciais costumam ser sutis e pouco específicas, o que faz com que muitos cheguem ao atendimento já em estágios avançados da doença”, alerta Morgana.
A falsa ideia do “pet que dá menos trabalho”
Um dos maiores mitos sobre pets não convencionais é que eles exigem menos cuidados. Mas a verdade é justamente o contrário: cada espécie tem necessidades muito específicas, e ignorá-las sai caro — literal e emocionalmente.
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“Essa percepção leva à negligência do manejo correto e da medicina preventiva. Sem acompanhamento, o diagnóstico e o tratamento acabam sendo tardios, o que reduz o prognóstico”, reforça Morgana. Ela destaca que a consulta preventiva é essencial para avaliar nutrição, ambiente e manejo, além de realizar exames clínicos, laboratoriais e de imagem.
Carinho é essencial, mas não basta
Para as veterinárias, a mensagem é clara: amar o seu pet é fundamental, mas amor sozinho não garante saúde. “Não é o afeto que garante saúde, mas a informação correta e o acompanhamento veterinário especializado”, resume Raíssa.
Morgana completa com uma orientação prática: “Diante de qualquer mudança discreta de comportamento, apetite, fezes ou mesmo logo após a aquisição do animal, a recomendação é buscar orientação profissional. É isso que assegura o bem-estar e a longevidade do seu pet”.
Escolher um pet não convencional é uma decisão linda, mas que vem com responsabilidades específicas. Antes de levar um novo amigo para casa, informe-se, prepare o ambiente adequado e, acima de tudo, encontre um veterinário especializado. Seu pet merece viver com saúde, conforto e dignidade, e isso começa com conhecimento.



