Campanhas de vacinação foram importantes para o controle da raiva canina no Brasil

Paulo Eduardo Brandão explica a situação do vírus da raiva no País, o que levou à redução dos casos e a origem do meme em torno do mês do cachorro louco

 

*Por Paulo Brandão

 

Você já ouviu falar que agosto é o mês do cachorro louco? História antiga no Brasil, chega essa época do ano e ressurgem os memes do cachorro louco e, em alguns lugares do País, campanhas de vacinação contra a raiva. Segundo dados da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, o Brasil registrou 298 casos de raiva transmitida por cães na década de 1990. Nos últimos dez anos, apenas um caso foi registrado, no Estado do Mato Grosso do Sul; mas isso não é motivo para vacilar na vacinação do seu pet. Quem explica é o professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, Paulo Eduardo Brandão.

Embora usado na campanha de vacinação da raiva, o mote do Mês do Cachorro Louco não surgiu com esse intuito. O professor explica que a origem do nome tem a ver com o ciclo de reprodução dos animais em meses mais frios: “Vou te surpreender porque, primeiro, a origem disso não tem nada a ver com a raiva. Depois acabou tendo, mas qual é a origem? As cadelas, por volta do mês de agosto começam a entrar em cio, ou seja, começam a entrar em período fértil. Os cães machos ficam mais agressivos pela seleção sexual, eles querem se reproduzir. Então eles brigam entre si. Por isso que o cachorro parece estar louco em agosto. Mas o que acontece? Vou encaixar a raiva aqui. Como eles se agridem mais, tem mais briga, mais transmissão de raiva e aí poderia ter mais raiva nesse mês. Casou o comportamento animal com a transmissão da raiva, entendeu? Por isso o Mês do Cachorro Louco”.

 

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“No mundo, são 59 mil casos humanos por ano. Ou seja, são 59 mil pessoas que morrem por raiva. É uma doença negligenciada, é uma doença da pobreza, certo? No mundo todo o principal transmissor de raiva para humanos ainda é o cão,” diz Brandão. Segundo o professor, hoje o Brasil é praticamente livre da raiva canina, mas o mesmo não é verdade em regiões mais pobres do globo, como em alguns lugares da África e na Índia. Brandão ainda ressalta que a doença é altamente evitável por meio de políticas de saúde pública, como a vacinação e castração de cães e gatos. “A Organização Mundial da Saúde tem uma meta de eliminar, no mundo todo, a transmissão de raiva canina até 2030. É bem improvável que isso aconteça, mas o importante é ter uma meta”, completa.

Hoje, no Brasil, as campanhas de vacinação contra a raiva canina diminuíram e estão localizadas nas áreas do País mais suscetíveis ao vírus da doença. O professor ressalta a importância que as campanhas tiveram no controle da doença; ele também destaca que a educação de posse responsável sobre os pets auxilia na diminuição de casos: “Aqui, no continente americano, inclusive na América Latina, nós conseguimos controlar muito bem a raiva canina. Existem casos esporádicos de raiva transmitida por cães, mas nós conseguimos controlar muito bem aqui por vacinação e por campanhas de esterilização dos animais”.

Embora as campanhas de vacinação tenham diminuído, é importante ressaltar que a maior parte das cidades brasileiras conta com postos de vacinação permanente contra o vírus da raiva. Na cidade de São Paulo, por exemplo, são mais de 15 os postos onde você pode garantir a vacinação anual do seu pet:”Lembrando que essas campanhas de vacinação visam a proteger a população humana indiretamente. São campanhas de saúde pública, ou de saúde única, como se fala hoje”, completa o professor.

Quem tem raiva hoje?

Brandão explica que, com a queda das transmissões por meio dos cachorros, hoje no Brasil os principais casos de transmissão da raiva (e não mais da variante canina da raiva) vêm de animais silvestres; com destaque a canídeos silvestres, primatas não humanos e, principalmente, morcegos: “Cada espécie tem um vírus da raiva, uma variante para chamar de sua. No resto do País, é muito raro ter raiva canina, mas quando acontece, por exemplo, aqui em São Paulo, é raiva variante de morcego. O morcego passou para o cão ou para o gato e aí tem risco de passar para a pessoa”. Nos últimos cinco anos, dos 11 casos de raiva, registrados em humanos, cinco tiveram os morcegos por transmissão, nenhum por cães.

O professor ainda conta um relato de raiva positiva na cidade de São Paulo: “Um caso recente aconteceu aqui do lado vizinho nosso da USP, em 2023. Nós achamos um cão de rua positivo para a raiva, não era a variante canina típica, mas era uma variante de morcego. Por isso, não é porque não tenha raiva canina que a gente não tem que continuar vacinando”.

Humanos transmitem raiva?

Embora seja tecnicamente possível a transmissão por meio da mordida de um ser humano infectado, não existem relatos de transmissão entre humanos por meio de mordedura. Os principais riscos de transmissão da raiva entre humanos são para profissionais da saúde em contato com fluidos corporais de pacientes infectados e por transplante de órgãos. “Existem, nos anos recentes, em países como Alemanha, Estados Unidos e China, casos de pessoas que tiveram raiva porque eram recipientes de órgãos de pessoas que morreram por raiva. Como é que aconteceu isso? Essas pessoas com raiva passaram não diagnosticadas, foram suspeitas de outras doenças, por exemplo, derrame cerebral ou algum câncer cerebral, alguma coisa que dá sintomas similares, não foram passadas por diagnóstico e foram doadores”, completa Brandão.

O professor ressalta que a raiva é uma doença que “só se pega uma vez”, devido à sua taxa de letalidade em humanos, que é de 100%. Por fim, para evitar o contágio, o especialista passa uma lista de recomendações: “Primeiro é proteger os animais que você tem no seu entorno, vacinando. Segundo, não tocar, não mexer em morcegos caídos no chão. Ele caiu no chão, aparece de dia, não consegue voar, ele é suspeito. Se acontecer isso, você tem que chamar um serviço veterinário, chamar a Secretaria da Saúde e assim por diante. Quem estiver exposto ao risco, por exemplo, você pegou um morcego sem saber, o morcego te mordeu, ou um cão, tem que procurar os postos de saúde, ou procurar o espaço Pasteur, que fica dentro do Emílio Ribas, ali na Dr. Arnaldo, para tomar a vacinação de pós-exposição e tomar o soro contra a raiva. Só quando todos estiverem cuidados, todos estão protegidos, essencialmente, para qualquer doença”.

*Paulo Brandão é professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP

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