Alimentada de forma errada por visitantes, macaca-prego desenvolve diabetes e não poderá mais voltar à natureza

O caso da macaca-prego Chica, internada por 25 dias em hospital veterinário de Uberaba, acende um alerta importante: oferecer comida a animais silvestres pode causar doenças crônicas irreversíveis

 

*Por Laura Lany, repórter do Portal Um Diabético especial para PetON 

 

Você já parou para pensar no que acontece quando alguém oferece um biscoito ou um pedaço de pão a um animal num parque? Para muitos, parece um gesto de carinho. Mas o caso da macaca-prego Chica, resgatada em janeiro de 2026 na Mata do Ipê, em Uberaba (MG), mostra de forma concreta o que essa prática pode causar e, que as consequências podem ser irreversíveis.

Chica foi encontrada em estado apático por servidores municipais. Levada ao Hospital Veterinário da Uniube (HVU), ela ficou internada por 25 dias. Os exames revelaram broncopneumopatia — uma inflamação pulmonar — e, após a estabilização clínica, os médicos confirmaram o diagnóstico que mudou tudo: diabetes mellitus.

Como chegaram ao diagnóstico?

Logo na admissão, os exames já mostravam hiperglicemia, ou seja, glicose elevada no sangue. Mas os veterinários responsáveis não fecharam o diagnóstico de imediato, e com razão: o estresse da captura pode alterar a glicemia temporariamente.

“O estresse agudo eleva cortisol e catecolaminas, o que pode causar hiperglicemia transitória. Os sedativos usados em procedimentos anestésicos também interferem na glicemia”, explica o médico-veterinário Cláudio YudiKanayama, responsável pelo caso.

Leia mais: 

Após 19 dias, com melhora respiratória e adaptação ao ambiente hospitalar, a equipe repetiu os exames. A dosagem de hemoglobina glicada,um marcador de hiperglicemia crônica, confirmou a diabetes mellitus. Não havia mais dúvida.

A causa? Pão de queijo e bolacha

A conclusão da equipe técnica aponta diretamente para a alimentação inadequada oferecida por frequentadores da área verde. Chica estava recebendo regularmente carboidratos simples, como pão de queijo e bolachas, das mãos de visitantes. Com o tempo, esse consumo comprometeu permanentemente seu metabolismo.

“A macaca estava recebendo alimentos inadequados por visitantes. Isso resultou em condição metabólica que comprometeu permanentemente sua saúde”, reforça o veterinário.

O caso é especialmente raro: estudos publicados na revista Zoo Biology indicam que a diabetes em primatas ocorre com muito mais frequência em animais de cativeiro do que em vida livre. Chica representa um registro incomum no Brasil — e por isso tem relevância clínica e ambiental que vai além do caso individual.

Chica não pode mais voltar à floresta

Durante a internação, a equipe ajustou a dieta da macaca, reduzindo carboidratos simples e aumentando a oferta de vegetais frescos. Mas a diabetes mellitus, uma vez instalada, não tem cura. Ela exige monitorização contínua, medicamentos diários, dieta controlada e exames periódicos.

“A natureza não oferece essas condições”, afirma Kanayama. “O caso demonstra que, uma vez instalada, a diabetes em primatas exige cuidado permanente.”

Chica aguarda encaminhamento ao Instituto Estadual de Florestas (IEF), que definirá uma instituição habilitada para o manejo permanente. A Secretaria de Meio Ambiente de Uberaba acompanha o caso e apoiará o IEF na busca por um local adequado.

Por que alimentar animais silvestres é tão perigoso?

A história de Chica é emblemática, mas não é uma exceção isolada. Especialistas alertam que oferecer alimentos a animais em parques e áreas verdes provoca uma série de consequências graves, tanto para o animal quanto para o ecossistema:

• Distúrbios metabólicos como diabetes e obesidade
• Dependência alimentar e perda da capacidade natural de buscar comida
• Alterações comportamentais e aumento de agressividade
• Risco de transmissão de zoonoses (doenças que passam de animais para humanos)
• Desequilíbrio ecológico na fauna local
Profissionais de saúde animal recomendam que adultos eduquem crianças sobre o respeito à fauna no habitat natural. Ao encontrar um animal em risco, a orientação é acionar instituições especializadas ou a Polícia Ambiental — nunca tentar alimentar ou capturar o animal sozinho.

O que fazer ao encontrar um animal silvestre em risco?

  • Não tente alimentar, pegar ou cuidar do animal sozinho. O contato humano pode piorar o estresse e a situação clínica.
  • Acione a Polícia Ambiental (190) ou a prefeitura de sua cidade para encaminhamento a um centro de triagem de animais silvestres (CETAS).
  • Registre o local e o estado do animal para ajudar os profissionais no atendimento.

Para os veterinários envolvidos no caso, a mensagem é clara: “Queremos que essa história sirva como alerta nacional. Alimentar um animal silvestre pode resultar em doença crônica irreversível.”

Chica sobreviveu. Mas o preço foi alto: ela nunca mais vai poder viver livre na floresta que é sua casa. Um biscoito que pareceu inofensivo mudou sua vida para sempre.

Fonte: Hospital Veterinário da Uniube (HVU) / Universidade do Agro | Uniube — Uberaba (MG)

Relacionadas

- Publicidade -spot_img

Últimas notícias