Após o resgate de 18 animais em uma clínica veterinária incendiada em Ceilândia (DF), veterinária do CEUB explica por que cães e gatos são especialmente vulneráveis à fumaça e o que fazer para protegê-los em emergências
Na manhã de ontem (18), equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) resgataram 18 animais de estimação de uma clínica veterinária em chamas em Ceilândia (DF). Dez cachorros, sete gatos e um coelho foram retirados do prédio tomado pela fumaça. Todos, felizmente, foram resgatados bem. O caso reacendeu um alerta importante: quando o assunto é incêndio, a fumaça pode ser tão letal quanto as chamas, e os pets são os primeiros a sofrer suas consequências.
Para entender os riscos e orientar os tutores, o Portal Pet ON consultou a professora de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Fabiana Volkweis, que explica os mecanismos da intoxicação por fumaça em animais e o que fazer diante de uma emergência.
Por que os pets sentem mais do que nós?
A sensibilidade dos animais à fumaça não é coincidência. De acordo com a professora Fabiana Volkweis, cães e gatos possuem maior volume respiratório em relação à sua massa corporal — o que significa que, a cada respiração, inalam proporcionalmente mais partículas tóxicas do que um ser humano adulto.
Os animais braquicefálicos — aqueles com focinho curto, como Pug, Bulldog e Shih Tzu — correm um risco ainda maior. “Essas raças já possuem dificuldade respiratória natural, o que agrava os efeitos da fumaça”, alerta a veterinária.
Além disso, os danos causados pela inalação são multifatoriais: envolvem a toxicidade dos agentes químicos presentes na fumaça (especialmente em queimas de plástico e materiais sintéticos), os danos térmicos às vias aéreas e a privação de oxigênio. Uma combinação perigosa que pode evoluir rapidamente, mesmo sem sintomas imediatos visíveis.
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Sinais de alerta: o que observar nas primeiras 48 horas
Um dos pontos mais críticos destacados pela especialista é que os sintomas podem surgir de forma tardia, entre 12 e 24 horas após a exposição. Por isso, mesmo que o animal pareça bem logo após o incidente, é fundamental mantê-lo sob observação.
Fique atento a:
- Respiração acelerada ou com a boca aberta
- Tosse persistente ou falta de ar
- Língua ou mucosas arroxeadas
- Secreção no focinho ou nos olhos
- Apatia, desorientação ou cambaleamento
- Vômito ou perda de apetite
- Desmaio ou perda de consciência
“É importante não deixar o pet sozinho após a exposição à fumaça, pois os sinais clínicos podem surgir de forma tardia. O tutor deve observar atentamente mudanças no comportamento, na respiração e no apetite, especialmente nas primeiras 48 horas”, orienta Fabiana Volkweis.
É preciso levar ao veterinário mesmo sem sintomas graves?
A orientação da veterinária é clara: sempre que houver exposição significativa à fumaça, o animal deve ser avaliado por um médico-veterinário, independentemente de apresentar ou não sintomas visíveis.
A avaliação imediata é indispensável quando o pet:
- Ficou em ambiente fechado com presença de fumaça
- Apresentou alteração de consciência, como apatia intensa, desorientação ou desmaio
- Teve dificuldade respiratória em qualquer intensidade
- Teve contato com fumaça proveniente da queima de plásticos ou materiais sintéticos
O que fazer na hora do resgate?
- Em situações de incêndio, cada segundo conta. A professora Fabiana Volkweis orienta um protocolo de primeiros cuidados que o tutor pode seguir antes de chegar ao veterinário:
Avalie se o animal está respirando e se há sinais de dificuldade respiratória.
- Observe focinho e boca: estão limpos? Há fuligem, secreção ou obstrução?
- Se houver fuligem ou secreção, higienize gentilmente a região do focinho e da boca.
- Verifique se há feridas, queimaduras ou lesões nos olhos.
- Leve o pet imediatamente para um ambiente aberto e bem ventilado.
- Encaminhe ao veterinário o mais rápido possível, sem esperar o surgimento de sintomas.
Pano molhado ajuda?
Cobrir o focinho do animal com um pano molhado durante o resgate ajuda a reduzir a quantidade de partículas inaladas, mas não elimina os gases tóxicos. É uma medida paliativa — o encaminhamento ao veterinário continua sendo indispensável.
A ameaça invisível: fumaça de plásticos e materiais sintéticos
Nem toda fumaça é igual. Em incêndios urbanos, a queima de plásticos, borrachas, espumas e outros materiais sintéticos libera compostos extremamente tóxicos — como monóxido de carbono, cianeto de hidrogênio e dioxinas — que causam danos graves às vias respiratórias e ao sistema nervoso dos animais em concentrações muito menores do que as necessárias para afetar humanos.
Como explicou a professora Fabiana Volkweis, os danos ocorrem em múltiplas frentes simultaneamente: toxicidade química, lesões térmicas nas vias aéreas e privação de oxigênio. Esse conjunto de fatores pode comprometer órgãos vitais em questão de minutos, tornando o atendimento veterinário imediato decisivo para a sobrevivência do animal.
O resgate em Ceilândia terminou bem, mas nem sempre é assim. Caso como esse, serve de lembrete de que a segurança dos pets em situações de emergência depende tanto da agilidade dos socorristas quanto do conhecimento dos tutores. Saber reconhecer os sinais de alerta e agir com rapidez pode salvar a vida do seu companheiro.



