Após morte de Orelha, a discussão sobre pets comunitários ganha força no Brasil

História de Nina, mascote da Alesp, mostra que cuidado coletivo pode funcionar – mas milhões de animais vivem expostos a violência, acidentes e abandono

 

Quando pensamos em animais de estimação, logo vem à mente a imagem tradicional: um peludo vivendo com sua família, dentro de casa, recebendo carinho e cuidados exclusivos. Mas existe outro modelo de proteção animal que tem ganhado cada vez mais espaço em diversas cidades brasileiras: os pets comunitários.

São aqueles cachorrinhos e gatinhos que, embora não tenham um tutor único ou uma casa fixa, recebem cuidados, alimentação, tratamento veterinário e muito afeto de um grupo de pessoas. E um dos exemplos mais inspiradores dessa história é Nina, a mascote oficial da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Uma moradora ilustre do Palácio 9 de Julho

Nina é uma vira-lata de aproximadamente 13 anos que vive no Palácio 9 de Julho, sede da Assembleia Legislativa de São Paulo, desde 2016. Sua história começou de forma triste: ela foi abandonada no estacionamento da Alesp quando seu antigo tutor, uma pessoa em situação de rua, foi levado pela polícia. No começo, Nina morava no subsolo do prédio.

Assustada e desconfiada, a cachorrinha precisou de paciência e carinho para se adaptar ao novo lar. “Foi preciso um biscoitinho daqui e outro dali, aos poucos ela foi se acostumando com as pessoas que trabalham aqui”, conta Victoria Frugoli, aposentada que trabalhou no cerimonial da Assembleia e hoje é uma das responsáveis pelos cuidados com Nina. Na época, Nina teve 9 filhotinhos, que foram cuidados e adotados por funcionários.

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Hoje, a peluda tem endereço certo: mora próximo ao dentro do batalhão dos Bombeiros da Alesp, onde recebe visitas constantes. Funcionários, seguranças e até os bombeiros que fazem plantão aos fins de semana garantem que ela nunca fique sozinha. Nina tem cama quentinha, comida caseira (arroz com frango, sua preferida desde a castração), água fresca e, principalmente, muito amor. Até hoje, e apesar de estar aposentada, Dona Victorina divide a responsabilidade com os bombeiros e funcionários.

Um legado de 17 anos

Nina não é a primeira moradora de quatro patas da Alesp. Antes dela, uma cachorrinha chamada Nega viveu no local por incríveis 17 anos, de 1999 a 2016. Nega apareceu um dia no estacionamento e simplesmente decidiu que ali seria seu lar.

A cadela participava ativamente da rotina do prédio: acompanhava cerimoniais, andava de elevador, fazia rondas com os policiais e até marcou presença em eventos solenes. Quando morreu de causas naturais, foi enterrada no jardim do estacionamento com direito a homenagens e plaquinha com foto.

Cuidado coletivo: responsabilidade de todos

O modelo de pet comunitário praticado na Alesp mostra que o amor pelos animais pode sim ser compartilhado de forma organizada e responsável. Nina já foi castrada, é sempre vacinada e faz acompanhamento regular com veterinário.

Este é um exemplo de como a tutela compartilhada pode funcionar quando há organização, comprometimento e, acima de tudo, amor genuíno pelos animais.

Pets comunitários pelo Brasil

Nina não é caso isolado. Em diversas cidades brasileiras, cachorros e gatos são acolhidos por comunidades inteiras: em universidades, empresas, condomínios e até bairros. Esses peludos ganham não apenas um tutor, mas uma rede inteira de pessoas dispostas a garantir seu bem-estar.

O modelo dos pets comunitários não substitui a adoção tradicional, mas representa uma alternativa importante de proteção animal em um país onde, em 2025, cerca de 30 milhões de animais domésticos — entre cães e gatos — estavam em situação de abandono, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de entidades de proteção animal.

Uma lição de amor e responsabilidade

A história de Nina nos ensina que proteger animais é uma responsabilidade que pode – e deve – ser compartilhada por toda a sociedade. Seu caso reforça que, mesmo sem uma casa tradicional, é possível garantir dignidade, saúde e afeto aos peludos que cruzam nosso caminho.

E que, às vezes, um palácio governamental pode ser o lar mais acolhedor que um vira-lata poderia sonhar em ter.

Nina continua morando na Alesp, supervisionando a rotina do prédio e enchendo de alegria todos que trabalham por lá. Uma prova viva de que amor não tem endereço fixo – basta ter coração.

O exemplo que pode multiplicar o bem

Que histórias como a de Nina e dos funcionários da Alesp inspirem outras empresas, órgãos públicos e moradores a abraçarem a causa dos pets comunitários. Cada organização, cada condomínio, cada bairro tem potencial para se tornar um lar acolhedor para animais que precisam de proteção.

O modelo é simples: basta que um grupo de pessoas se organize para garantir alimentação, cuidados veterinários e, principalmente, amor. Não é preciso ter um tutor único – é preciso ter uma comunidade que se importa.

Em um país onde 30 milhões de animais vivem abandonados, cada iniciativa como essa representa não apenas a salvação de uma vida, mas a construção de uma sociedade mais compassiva e responsável. Nina mostra que é possível. Nega mostrou antes dela. E quantos outros peludos ainda esperam por essa chance?

O convite está feito: que tal olhar ao seu redor e descobrir se existe um Nina ou uma Nega esperando para fazer parte da sua comunidade?

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