Por Brenno Neves
Quem convive com cachorro provavelmente já presenciou uma cena curiosa: basta fazer carinho em outro animal ou dar atenção a alguém para o pet se aproximar, tentar interromper a interação ou ficar agitado. A interpretação parece óbvia, é ciúme. Mas será que os cães realmente sentem ciúme, ou estamos atribuindo a eles sentimentos que são nossos?
Embora existam pesquisas sobre o tema, ainda não é possível afirmar que os cães experimentem o ciúme da mesma maneira que os humanos. Eles podem apresentar comportamentos que lembram o ciúme, mas isso não significa necessariamente que estejam sentindo a mesma emoção que nós. Muitas vezes, essas reações estão relacionadas à busca por atenção, à insegurança ou à competição por recursos.
O que a ciência já observou
Estudos publicados nas revistas científicas PLOS ONE e Animal Cognition investigaram como os cães reagem quando seus responsáveis direcionam atenção a outros animais. Os pesquisadores identificaram comportamentos associados ao ciúme, mas os resultados ainda não permitem estabelecer com segurança a natureza dessa emoção. Em outras palavras, a ciência consegue descrever o comportamento, mas ainda não consegue afirmar o que o animal sente.
Leia mais:
-
10 cachorros que mais sentem calor e quais as dicas de cuidados nesse tempo
-
Por que os cães reagem de forma diferente ao banho?
-
Abandono: um foco na proteção animal e na lei
Mudanças na família pedem atenção
A chegada de um bebê, de um novo parceiro ou de outro animal à família também pode provocar mudanças no comportamento do cachorro. Isso acontece porque alterações na rotina e na atenção que ele recebe podem gerar estresse, ansiedade ou insegurança.
Por isso, nem toda mudança de comportamento deve ser interpretada como ciúme. É importante observar o contexto e entender o que está provocando aquela reação antes de dar a ela um nome.
O risco de chamar tudo de ciúme
Alguns comportamentos exigem atenção especial, principalmente quando envolvem rosnados, tentativas de afastar outros animais, exposição dos dentes ou mordidas. Quando existe agressividade, precisamos investigar a causa. O animal pode estar tentando proteger um recurso importante para ele, como alimento, espaço ou acesso à pessoa responsável por ele.
Na minha avaliação, esse é o principal problema de enxergar ciúme em tudo: tratar qualquer reação dessa forma pode fazer com que sinais de alerta sejam ignorados.
Previsibilidade e respeito ao tempo do animal
Para evitar conflitos, a recomendação é manter uma rotina previsível, oferecer atenção equilibrada e reforçar comportamentos tranquilos. A introdução de novos animais ou pessoas ao ambiente também deve acontecer de forma gradual.
O mais importante é não reforçar comportamentos indesejados e respeitar o tempo de adaptação de cada animal. Quando há sinais persistentes de ansiedade, medo ou agressividade, a orientação de um veterinário especializado em comportamento é fundamental.
*Brenno Neves é médico-veterinário da Plamev.


