Projeto usa cães como co-terapeutas no atendimento a crianças com autismo

Projeto usa cães como co-terapeutas no atendimento a crianças com autismo

 

Em um país com cerca de 2,4 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), um projeto de extensão universitária está mostrando que o cuidado pode ganhar quatro patas. O programa “Aumor de Cão”, desenvolvido no Centro Universitário Una, em Minas Gerais, utiliza cães treinados como co-terapeutas em atendimentos clínicos, educacionais e sociais voltados a crianças e adolescentes com TEA.

A iniciativa nasceu da experiência da pós-doutora em imunologia e professora da Una, Ana Cristina Santos, durante seu trabalho voluntário no Centro de Atendimento e Inclusão Social (CAIS), em Contagem. “Eu costumava levar meu cachorro Thor para acalmar as crianças autistas durante os períodos de crise e para potencializar a socialização e o engajamento nas aulas de música e de oficinas de arte”, conta Ana.

A partir dessa vivência, ela estruturou o projeto com uma equipe multiprofissional formada por professores das áreas de Medicina Veterinária, Fisioterapia, Psicologia e Odontologia. Hoje, três cães integram a equipe: Thor, Chico e Cold, todos selecionados e treinados especificamente para a atuação terapêutica.

Resultados concretos em sala de atendimento

Os impactos do projeto já têm resultados práticos. Miguel, uma criança com TEA, conseguiu realizar a higiene bucal com tranquilidade durante um atendimento mediado por um dos cães. Nicolas, em processo de reabilitação após a retirada de um tumor cerebral, encontrou nos animais um estímulo extra para as sessões de fisioterapia.

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A explicação para esses resultados passa pela biologia. A interação com cães pode aumentar a liberação de ocitocina, substância relacionada à sensação de segurança e confiança, além de reduzir os níveis de cortisol, associado ao estresse. Há também redução da frequência cardíaca, da pressão arterial e ativação do sistema parassimpático, responsável pelo estado de relaxamento.

Para o médico veterinário e professor da Una, Guilherme Henrique Costa Silva, o animal atua como mediador da relação entre paciente e profissional. “O cão não vai curar as dificuldades sociais, mas atua como um facilitador muito potente do vínculo. Ele oferece uma comunicação mais simples, direta, não julga e não exige respostas complexas. Isso reduz a ansiedade social e abre espaço para a interação”, explica.

O toque repetitivo, como acariciar o cão, também contribui para a regulação sensorial: ajuda a organizar emoções, reduz a agitação e melhora o foco. Para crianças com TEA que apresentam resistência a procedimentos, essa mediação animal tem se mostrado um diferencial significativo em atendimentos odontológicos e sessões de fisioterapia.

Os dados da literatura científica reforçam a experiência do projeto. Uma pesquisa publicada na revista MDPI apontou que cerca de 84% dos participantes de estudos com terapia assistida por cães obtiveram melhora na comunicação e na interação social.

Bem-estar animal como parte do protocolo

A participação dos cães no programa segue critérios rigorosos. A seleção começa por uma análise comportamental: os animais precisam demonstrar baixa reatividade, tolerância ao toque, recuperação rápida a sustos e comportamento previsível. Cães com sinais de agressividade ou medo exagerado não são admitidos.

Após a avaliação comportamental, os animais passam por exame clínico completo, com exames laboratoriais e parasitológico de fezes a cada quinze dias. Vacinação em dia, vermifugação e controle de pulgas e carrapatos são exigências básicas, além de higiene antes de cada visita. “Eles precisam estar perfeitamente saudáveis para garantir que vão levar benefícios e não riscos”, explica o veterinário Guilherme.

Três frentes de atuação

O projeto “Aumor de Cão” atua atualmente em três frentes: visitas a instituições de longa permanência para idosos, fisioterapia assistida por animais e ações em escolas voltadas à socialização e ao desenvolvimento sensorial de crianças. A proposta reforça o potencial dos cães como agentes de saúde em contextos que vão além da clínica veterinária convencional.

SERVIÇO

Projeto: “Aumor de Cão” – Centro Universitário Una |
Solicitação de atendimento: ana.c.santos@animaeducacao.com.br

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